China em mutação contínua
Recifense lança Moto Contínuo, seu terceiro álbum solo, de graça na internet e aproveita bom momento da carreira
Por Renato Contente
Sou daqueles que conheceram China não pela participação dele no Sheik Tosado, fruto fértil do movimento manguebeat em Pernambuco, mas por ter visto, entre os concorridos comerciais da programação da Rede Globo, algo que fugia à tradição publicitária da emissora: um videoclipe que consistia, basicamente, em uma filmagem amadora de uma ida a praia com a família e, de fundo, uma música tão gostosa quanto às imagens.
A publicidade, mesmo em outro formato, cumpriu à risca seu papel de convencimento e, além de gerar a curiosidade para saber o que era aquilo, quem fazia e de onde vinha, despertou a vontade de imitar as personagens do vídeo e ir para a praia mais próxima com o mesmo fundo musical.
“Canção que não morre no ar”, a dita cuja, era a música de trabalho do álbum Simulacro, de 2007, que comportou em um só balaio timbres gringos e da terra, com rock, MPB, bossa nova, jovem guarda e batidas eletrônicas. O disco, realizado através de um edital de cultura, foi logo disponibilizado para download, sendo acessível a qualquer um que quisesse conhecer melhor a música do artista.
No último mês de outubro, China, agora VJ da MTV no programa Na Brasa, repetiu o feito lançando Moto Contínuo (2011), terceiro álbum de sua carreira solo, de graça na internet. O disco mantém o mesmo corpo liquidificado do anterior, amarrando a mesma variedade musical, mas agora com atenção especial para o iê-iê-iê, gênero pesquisado com minúcia pelo artista, que foi além de Roberto Carlos e dos Beatles para achar bandas no Peru, na Índia e no Japão.
O álbum tem ginga. As participações especiais de Pitty, Tiê e Ylana Queiroga dão um toque doce às canções e mostram que o artista, do mesmo jeito multifacetado dos discos anteriores, mantém o compromisso de sempre renovar, e transformar, suas composições.
“Overlock”, faixa que divide com Pitty, é um dos pontos altos da obra, e não há quem não se embale nos versos sobre costurar um coração no outro com um sintetizador instigante de fundo. É em “Nem pensar em você”, contudo, que se evidencia a força do iê-iê-iê no álbum, com um recado para uma decepção amorosa seguido do anúncio de volta por cima, comum às letras do gênero: “Eu preciso mesmo crescer/ para te deixar no chão/ nunca mais vou ficar com você”, diz a canção.
Utilizando a mesma afetividade metalinguística de “Canção que não morre no ar”, mas agora com o sentimento oposto, “Mais um sucesso pra ninguém”, com Ylana Queiroga, segue a linha de amor mal acabado presente em boa parte das músicas de Moto Contínuo e, como a letra intertextualiza, sem otimismo, essa “vai morrer no ar”. O clima faz lembrar o conterrâneo Otto no lirismo rasgado (e genial) de Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos, álbum de 2009.
“12 Quedas”, escrita em parceria com Lenine, é daquelas de se querer por perto praia, cerveja e gente querida, para ficar longe de qualquer problema, como ilustra o trecho “o sal curou minhas feridas/ e as ondas vem beijar meus pés”, e tem um dos melhores refrões da carreira do pernambucano.
“Terminei indo”, onde China divide a voz com Tiê, parece ter sido feita pela/para a cantora, de tão parecida que é com seu estilo. Com letra bonita e melodia suave, e piano de Vitor Araújo, poetiza que “existo sempre que você pensar em nós”. Chiquinho, responsável pelo sampler e pela bateria do Mombojó, e Vicente Machado, pela guitarra, colaboram em diversas faixas, mas é “Programador computador” que mais lembra a sonoridade da banda recifense.
Foi assim, feito a várias mãos e timbres diferentes, que o produto final de Moto Contínuo conseguiu diversidade e originalidade faixa a faixa, típica obsessão do cenário independente de Recife que, para se destacar em meio a tanta coisa parecida, tem que tirar leite de pedra. O resultado do processo, não só de China, mas de Karina Buhr, Tibério Azul e Caçapa (só para citar alguns), é reconhecido e respeitado em todo o país.
Por opção sua, que não aprova o uso repetido de recursos via editais (ele defende que isso deve ser entendido como um incentivo inicial ao artista, não um hábito), ele bancou todo o custo da obra, contando com o apoio de amigos para as demais etapas do trabalho. O processo foi árduo e exigiu dele desenvoltura em diferentes funções – produtor, compositor, instrumentista, divulgador, etc. –, rotina de artista independente.
O clipe de “Canção que não morre no ar”, citado no início do texto, continua marcante e dando vontade de imitar as personagens. Seu novo clipe, “Só serve pra dançar”, seguiu a onda do colaborativismo virtual (nesse caso, via Twitter), contando com a ajuda de 50 meninas que enviaram vídeos dançando a música. O custo foi baixo, e a divulgação multiplicada por 50. Dessa vez, não teve Rede Globo, mas o Youtube, e o vídeo já conta com quase 30 mil exibições. Hoje, é assim que se (auto-)faz carreira no mundo da música, com a tecnologia do lado, e os fãs também.
Artista: China
Disco: Moto Contínuo (2011)
Gravadora: Trama
Onde encontrar: disponível para download no site www.chinaman.com.br
Recifense lança Moto Contínuo, seu terceiro álbum solo, de graça na internet e aproveita bom momento da carreira
Por Renato Contente
Sou daqueles que conheceram China não pela participação dele no Sheik Tosado, fruto fértil do movimento manguebeat em Pernambuco, mas por ter visto, entre os concorridos comerciais da programação da Rede Globo, algo que fugia à tradição publicitária da emissora: um videoclipe que consistia, basicamente, em uma filmagem amadora de uma ida a praia com a família e, de fundo, uma música tão gostosa quanto às imagens.
A publicidade, mesmo em outro formato, cumpriu à risca seu papel de convencimento e, além de gerar a curiosidade para saber o que era aquilo, quem fazia e de onde vinha, despertou a vontade de imitar as personagens do vídeo e ir para a praia mais próxima com o mesmo fundo musical.
“Canção que não morre no ar”, a dita cuja, era a música de trabalho do álbum Simulacro, de 2007, que comportou em um só balaio timbres gringos e da terra, com rock, MPB, bossa nova, jovem guarda e batidas eletrônicas. O disco, realizado através de um edital de cultura, foi logo disponibilizado para download, sendo acessível a qualquer um que quisesse conhecer melhor a música do artista.
No último mês de outubro, China, agora VJ da MTV no programa Na Brasa, repetiu o feito lançando Moto Contínuo (2011), terceiro álbum de sua carreira solo, de graça na internet. O disco mantém o mesmo corpo liquidificado do anterior, amarrando a mesma variedade musical, mas agora com atenção especial para o iê-iê-iê, gênero pesquisado com minúcia pelo artista, que foi além de Roberto Carlos e dos Beatles para achar bandas no Peru, na Índia e no Japão.
O álbum tem ginga. As participações especiais de Pitty, Tiê e Ylana Queiroga dão um toque doce às canções e mostram que o artista, do mesmo jeito multifacetado dos discos anteriores, mantém o compromisso de sempre renovar, e transformar, suas composições.
“Overlock”, faixa que divide com Pitty, é um dos pontos altos da obra, e não há quem não se embale nos versos sobre costurar um coração no outro com um sintetizador instigante de fundo. É em “Nem pensar em você”, contudo, que se evidencia a força do iê-iê-iê no álbum, com um recado para uma decepção amorosa seguido do anúncio de volta por cima, comum às letras do gênero: “Eu preciso mesmo crescer/ para te deixar no chão/ nunca mais vou ficar com você”, diz a canção.
Utilizando a mesma afetividade metalinguística de “Canção que não morre no ar”, mas agora com o sentimento oposto, “Mais um sucesso pra ninguém”, com Ylana Queiroga, segue a linha de amor mal acabado presente em boa parte das músicas de Moto Contínuo e, como a letra intertextualiza, sem otimismo, essa “vai morrer no ar”. O clima faz lembrar o conterrâneo Otto no lirismo rasgado (e genial) de Certa manhã acordei de sonhos intranqüilos, álbum de 2009.
“12 Quedas”, escrita em parceria com Lenine, é daquelas de se querer por perto praia, cerveja e gente querida, para ficar longe de qualquer problema, como ilustra o trecho “o sal curou minhas feridas/ e as ondas vem beijar meus pés”, e tem um dos melhores refrões da carreira do pernambucano.
“Terminei indo”, onde China divide a voz com Tiê, parece ter sido feita pela/para a cantora, de tão parecida que é com seu estilo. Com letra bonita e melodia suave, e piano de Vitor Araújo, poetiza que “existo sempre que você pensar em nós”. Chiquinho, responsável pelo sampler e pela bateria do Mombojó, e Vicente Machado, pela guitarra, colaboram em diversas faixas, mas é “Programador computador” que mais lembra a sonoridade da banda recifense.
Foi assim, feito a várias mãos e timbres diferentes, que o produto final de Moto Contínuo conseguiu diversidade e originalidade faixa a faixa, típica obsessão do cenário independente de Recife que, para se destacar em meio a tanta coisa parecida, tem que tirar leite de pedra. O resultado do processo, não só de China, mas de Karina Buhr, Tibério Azul e Caçapa (só para citar alguns), é reconhecido e respeitado em todo o país.
Por opção sua, que não aprova o uso repetido de recursos via editais (ele defende que isso deve ser entendido como um incentivo inicial ao artista, não um hábito), ele bancou todo o custo da obra, contando com o apoio de amigos para as demais etapas do trabalho. O processo foi árduo e exigiu dele desenvoltura em diferentes funções – produtor, compositor, instrumentista, divulgador, etc. –, rotina de artista independente.
O clipe de “Canção que não morre no ar”, citado no início do texto, continua marcante e dando vontade de imitar as personagens. Seu novo clipe, “Só serve pra dançar”, seguiu a onda do colaborativismo virtual (nesse caso, via Twitter), contando com a ajuda de 50 meninas que enviaram vídeos dançando a música. O custo foi baixo, e a divulgação multiplicada por 50. Dessa vez, não teve Rede Globo, mas o Youtube, e o vídeo já conta com quase 30 mil exibições. Hoje, é assim que se (auto-)faz carreira no mundo da música, com a tecnologia do lado, e os fãs também.
Artista: China
Disco: Moto Contínuo (2011)
Gravadora: Trama
Onde encontrar: disponível para download no site www.chinaman.com.br

Parabéns infinitamente pro China, tô belíssimo trabalho que me encantou completamente! Vida longa ao China e muitos discos!
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