quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Clássicos - Rolling Stones - Exile on Main Street (CD)


Stones rolam no exílio musical americano
Há quase 40 anos foi lançado Exile on Main Street, o décimo álbum dos Rolling Stones, que viajou pelas origens americanas do rock.

Por Camila Estephania 

Durante os anos 60, os Rolling Stones construíram sua representatividade dentro do cenário rock da época. Na Inglaterra, grandes bandas como Beatles, The Who e Led Zeppelin, no fim da década, se apertavam no mesmo espaço que os Rolling Stones. Diante de nomes de peso, era inegável o quadro musical efervescente pelo qual o país atravessava. Configurava, então, um lugar favorável para uma evolução cultural. Porém, foi na virada da década, por aí dos meses de 1970, que os Stones se deram conta que seus impostos não estavam sendo pagos. Em outras palavras, os caras deviam, e muito. A ponto de escolherem sair do país para não gerar novas tarifas.  

Dona de uma taxa tributária exorbitante, a Inglaterra, na época, cobrava impostos que chegavam a 90%. Os Rolling Stones não economizavam nos gastos da vida de rock star, e não conseguiam juntar o suficiente para sanar o débito com a Receita Federal e permanecer no país sob a política tributária adotada. Foi nesse contexto que a banda marcou um show para despedir-se da Grã-Bretanha. Após o fim dos Beatles em 1969, o encerramento dos Stones já era aguardado pela mídia e parecia anunciado naquela ideia de um show de despedida. No entanto, o grupo planejava se recuperar financeiramente e voltar para sua terra natal.

Show feito, hora de se exilar. Mick Jagger, Keith Richards, Charles Watts, Ron Wood e Mick Taylor desembarcaram na França no dia 1 de abril de 1971. Keith, que tinha esposa e filho, tratou de abrigar a família em uma casa grande alugada no sul do país. Os demais integrantes ficaram espalhados por outras cidades francesas, alguns mais próximos de Keith, outros mais distantes. Após buscar, sem sucesso, por um estúdio ou estabelecimento que tivesse condições para a montagem de um, o porão da casa de Richards recebeu a instalação de um estúdio improvisado, onde seriam feitas a criação e composição de novas músicas. A distância entre os músicos atrapalhava a viabilidade do processo de criação, pois o grupo não conseguia completar uma música antes de ir embora para seu respectivo lar. Por isso, aos poucos todo o grupo passou a viver na casa de Keith Richards.  

O porão da casa era muito grande e possuía uma diferença de sonoridade entre os cômodos, por isso os instrumentos ficavam em ambientes diferentes, se alguém quisesse dar sua opinião sobre uma música, tinha de visitar todos os quartos para explicar sua ideia aos músicos. Foi mediante dessas dificuldades que os Stones começaram a criar o Exile on Main Street.

Tão singular quanto seu processo de produção, foi o produto final do álbum duplo lançado em 1972. Embora a banda sempre tenha tido influências do country e blues, tendo feito alguns covers do gênero em discos anteriores, foi no décimo deles, o Exile, que eles permitiram que tais influências falassem mais alto. O resultado é brilhante. O rock que se originou nos Estados Unidos justamente dessa fusão entre os dois gêneros (country e blues) aparece aqui em sua forma mais crua. As letras com referências ao país norte-americano também não são poucas, a acelerada Rip This Joint, por exemplo, faz um passeio pelas cidades do sul dos EUA (de onde veio o country) e poderia facilmente fazer parte de algum disco de Chuck Berry durante os anos 50. Parece mais que o exílio tinha levado os Stones para a terra do Tio Sam, ao invés da França.

E não pára por aí. Para fazer a pós-produção, os Rolling Stones viajaram para Los Angeles onde tiverem que regravar os vocais. Por lá, convidaram um coro para participar de algumas faixas do disco. O toque de gospel e soul entra a partir dessas vozes que abrilhantam maravilhosamente as canções Tumbling Dice, Shine a Light, Let it Loose e I Just Wanna See His Face. Ainda na França, também contaram com a participação de vários músicos, destacando-se o saxofonista e trompetista Bobby Keys cuja contribuição marca várias músicas, e o talentoso Billy Preston no piano e teclado de Shine a Light.  

As lentas Sweet Virginia e Torn and Frayed chegam uma atrás da outra para trazer mais calma ao disco. Sweet Virginia com sua melodia suave é, provavelmente, uma das canções mais belas já feitas pela banda, além de ser um dos exemplos da ótima participação de Bobby Keys com seu sax. Em seguida vem a engajada Sweet Black Angel cuja letra pede pela liberdade da ativista Ângela Davis (o doce anjo negro), que foi acusada por um crime que não cometeu e foi a protagonista de uma das maiores caçadas já feitas pelos EUA.

Falando em amor, temos Loving Cup, onde Mick Jagger canta o desejo de se embriagar de amor. A animada Happy segue a mesma linha e deixa Keith Richards cantar sua necessidade de ter um amor pra ser feliz. Nessa última canção há o único momento na história da banda em que Keith assume sozinho os vocais.

Em Casino Boogie algumas frases desconexas são cantadas para completar a base instrumental que o grupo havia feito. Cansados da rotina pesada de criação do disco no sul da França, Jagger e Richards já estavam esgotados de ideias para composições. As letras de Casino Boogie nasceram da junção de algumas sentenças soltas escritas pelos dois já no período de finalização do álbum nos Estados Unidos.

O disco duplo também conta com Shake Your Hips, onde uma voz provocativa convida o ouvinte para dançar e All Down the Line em que temos o rock mais próximo dos Rolling Stones fora de Exile. O blues mais pesado fica por conta de Stop Breacking Down e Ventilator Blues. E em Turd on the Run, o lamento por ter desperdiçado amor com quem não devia. 

Rocks Off, que abre a bolacha, apresenta o a infuências de rock, blues e country que atravessa todo o disco e já anuncia o que vem nas 16 músicas que se seguiram. Para fechar temos Soul Surviver que mantém o ritmo do álbum até o fim.

Embora não tenha sido imediatamente bem recebido pela crítica da época, o duplo dos Stones foi cativando o gosto dos ouvintes aos poucos. Em uma lista feita pela Rolling Stones em 2003, conquistou seu lugar entre os 10 melhores álbuns do século, garantindo a sétima posição. Difícil escolher apenas uma música para ser a queridinha em Exile on Main Street, parece mais que os versos “May the good Lord shine a light on you/ Make every song your favorite tune” de Shine a Light se concretizam no mesmo álbum em que ela faz parte: uma compilação de músicas favoritas. 

Artista: The Rolling Stones
Disco: Exile On Main St. (1972)
Gravadora: Atlantic
Preço: R$39,90 (Deluxe Edition)

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