O que João nos deu
Em 1959, saía do forno Chega de saudade, que revirou a maneira de pensar e de fazer música no Brasil. O álbum de João Gilberto fixou as primeiras pedras seguras para se erguer a Bossa Nova.
Em 1959, saía do forno Chega de saudade, que revirou a maneira de pensar e de fazer música no Brasil. O álbum de João Gilberto fixou as primeiras pedras seguras para se erguer a Bossa Nova.
por Felipe Resk
Por vezes, um minuto e 59 segundos é espaço suficiente para abrigar uma revolução. É esse o tempo cirurgicamente preciso da canção-monumento Chega de saudade, que a história tratou de tornar marco da Bossa Nova. Apesar de Vinícius de Moraes e Antônio Carlos Jobim serem os autores da música, os louros pela interpretação completamente inovadora – responsável por fazer dela um ícone – se agitam na conta do baiano de Juazeiro, João Gilberto. Sua voz mansa e seus acordes exatos carregam uma nova forma de enxergar a vida: com mais luz, sutileza e disposição para perceber as coisas bonitas do mundo.
O LP Chega de saudade entrou em circulação em 1959, pela britânica Odeon. No ano de 2007, apareceu na lista da revista Rolling Stone, como o quarto álbum mais importante da música brasileira. Com doze faixas, esteve em cartaz por 31 anos. Conhecido por sua excentricidade, João Gilberto trazia uma técnica original para ferir as cordas do violão. Fazendo com que as notas de um acorde soassem ao mesmo tempo – acelerando o andamento ou adicionando silêncios à melodia – conferia um ritmo diferente em relação ao que se estava acostumado a ouvir. A pegada deu mais sofisticação e gingado ao compasso nacional. A imprevisibilidade da harmonia fez das canções mais leves, elegantes e com um tom de despojamento inteligente.
Na verdade, a batida não era, a rigor, tão inédita assim. Ela aparecera um ano antes, quando o próprio João Gilberto acompanhou Elizete Cardoso em duas faixas de Canção do Amor demais (1958). No entanto, no álbum – resultado dos ensaios na Rua Nascimento e Silva, 107 – a Divina continuava presa à métrica do samba-enredo. No violão de João Gilberto, já estaria a semente da Bossa Nova, mas que só fecundou no momento em que também foi alterada a forma de cantar.
O vozeirão de crooner, típico dos conjuntos que encantavam os auditórios da Rádio Nacional, foi escanteado. A proposta, agora, não tinha pudor em deixar criar teia de aranha no impulso amargo de só imitar as bandas americanas. Cantava-se em um quase sussurro, distante da forma enlatada, que vinha de fora. O que passava a ter valor era algo nunca antes experimentado, por isso novo; e que refletia o deboche e a alegria brasileira, por isso bossa.
A faixa de abertura, que dá nome ao álbum, é uma verdadeira ode ao amor puro. O violão deixa de ser um mero acompanhante, e ocupa, junto à voz, o primeiro plano. Nela, o lirismo trágico das canções românticas, até então tendência, perde terreno para “abraços e beijinhos, e carinhos sem ter fim”. Para João Gilberto, nenhuma letra de música deveria falar de morte, vísceras ou punhal. Incomoda o estômago compor imagens de garras rasgando peitos e corações esguichando sangue. Na Bossa Nova, celebra-se o encontro (“não quero mais esse negócio de você viver sem mim”), e se argumenta em defesa da vontade de viver.
Segundo o pesquisador Ruy Castro, Chega de Saudade oferecia, pela primeira vez, um espelho aos jovens brasileiros. “Os garotos podiam se ver naquela música, tão bem quanto nas águas de Ipanema”. Para ele, a batida desafiadora despertou em muitos, como nenhum outro disco havia feito antes, a vontade de cantar, compor ou tocar um instrumento. “Mais exatamente, violão”, sentencia.
No álbum, João Gilberto apresentou duas músicas próprias: Hô-ba-la-la e Bim Bom. Ambas são, pelo próprio nome, sugestões sonoras; quase onomatopeicas. Através delas, compõe cenários e cria sensações de movimento. Além de Chega de saudade, interpretou outra parceria entre Tom e Vinícius (Brigas nunca mais), que fala em “bom é mesmo amar em paz”, reforçando o lado Bossa Nova em detrimento das relações conflituosas. Deu arranjo a duas canções de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli: Lobo bobo, uma paródia ao machismo, em que Chapeuzinho traz na coleira “o lobo, que não janta nunca mais”, e Saudade fez um samba. E chegou até a gravar artistas bem mais velhos, como Ary Barroso (É luxo só e Morena boca de ouro) e Dorival Caymmi (Rosa Morena).
Também é emblemática a reinvenção de João Gilberto para outra música alegórica da Bossa Nova: Desafinado. Uma parceria de Tom e Newton Mendonça. O título da canção se revela uma pista falsa aos menos avisados. Como defende o músico Caetano Veloso, “com seus intervalos melódicos inusitados, exigia intérpretes afinadíssimos e terminava na delicada ironia de suas palavras, pedindo tolerância”.
Em geral, o álbum é produto da equação que carrega, de um lado, a experiência de músicos como Milton Banana (bateria), a graciosidade de Copinha (flauta) e o talento magistral de Tom Jobim; e, do outro, o parnasianismo musical e o ouvido absoluto do próprio João Gilberto. Que, perfeccionista que é, gravou direto com a orquestra, sem qualquer playback. Ao detectar erros mínimos, fazia questão de tocar tudo de novo. Do início. Para se ter ideia: normalmente, na gravadora, um artista dava conta de três faixas a cada quatro horas; mas com João Gilberto, uma música podia custar o dia inteiro. Além da paciência dos outros músicos.
Em Chega de saudade, liberdade e a espontaneidade se materializam no som de um artesão que, em busca da pureza artística, conseguiu construir uma identidade. Valendo-se da melodia de fundamento europeu (com orquestração e metais), da harmonia de inspiração jazzística (típica dos Estados Unidos) e do ritmo africano; a Bossa Nova foi, por muito tempo, a expressão mais forte para representar a cultura musical brasileira. Porque ela, assim como o próprio povo do país, nasceu também da miscigenação. Ao combinar elementos novos com antigos, João Gilberto provou ser possível se valer do que já é conhecido para criar o inesperado.
A maior contribuição dele foi, enfim, mostrar que sentidos diferentes, quando bem reunidos, podem apontar em uma mesma direção: para frente.
Artista: João Gilberto
Disco: Chega de Saudade (1959)
Gravadora: Odeon
Preço: R$60 (importado)
Artista: João Gilberto
Disco: Chega de Saudade (1959)
Gravadora: Odeon
Preço: R$60 (importado)
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