quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brasil - Pouca Vogal - Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre



Muita consoante
Gessinger e Leindecker, líderes das bandas gaúchas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem, apostam no Pouca Vogal para sair da zona de conforto e se aventurar em novos horizontes

Por Anna Tiago


A pronúncia de uma vogal é mais livre, o ar escapa mais facilmente pela boca. Já a consoante requer um pouco mais de estreitamento, é mais fechada e, talvez, necessite de mais cuidado para pronunciá-la corretamente. Era isso o que Humberto Gessinger e Duca Leindecker estavam à procura: menos euforia, mais introspecção. Pouca vogal e mais intimismo.

Dois gaúchos. Duas bandas de rock de sucesso. Dois sobrenomes incomuns, com muitas consoantes. Mas a maior coincidência entre eles foi a estagnação, por tempo indeterminado, de antigas semeaduras e o desejo de plantar sementes capazes de gerar frutos inusitados. E essa nova plantação teve início em setembro de 2008, ano em que as bandas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem encerraram suas turnês de Novos Horizontes e 7, respectivamente, e seus líderes resolveram se unir em prol de um novo projeto. 

Antes do disco Pouca Vogal, a dupla já tinha se “esbarrado”. Em 2004, Gessinger tocou no acústico da Cidadão Quem e, após três anos, eles começaram a compor juntos. Em 2007, Leindecker foi convidado para tocar algumas canções com o engenheiro havaiano e, desde então, pensavam em realizar algum trabalho juntos. Daí surgiu o Pouca Vogal.

Mas se engana quem ainda o pensa como projeto. O que começou como uma ideia de se desapegar das antigas bandas e brincar com uma parceria diferente foi se consolidando nesses três anos de formação. Hoje, as vogais antes do nome da nova empreitada mudaram: “o” (projeto) Pouca Vogal agora é “a” (banda) Pouca Vogal. E, segundo seus (dois!) integrantes, “a menor banda do rock gaúcho”. Impossível achar que o “menor” seja relativo à qualidade, quando se sabe que, à frente dela, estão os líderes de duas das maiores bandas de rock do Sul do Brasil.

A princípio, as oito músicas do álbum foram gravadas de forma independente e lançadas gratuitamente na internet. Por meio do site www.poucavogal.com.br, os interessados nas composições inéditas da nova parceria gaúcha poderiam obtê-las gratuitamente. A aprovação veio e, após nove meses, Gessinger e Leindecker gravaram o CD, DVD e Blu-ray Pouca Vogal ao Vivo em Porto Alegre pela Som Livre.

Ao todo, são 20 faixas. Dentre elas, clássicos das bandas originais do duo. Somos quem podemos ser, Até o fim e Refrão de Bolero são algumas das canções dos Engenheiros do Hawaii que marcam forte presença no álbum. A força do silêncio, Dia Especial e Pinhal dão uma pitada de Cidadão Quem na mistura. Boa sacada para atrair a atenção para o disco, apesar de a qualidade e inovação de Pouca Vogal não necessitar de tal artifício de “sedução”.

Entre as músicas inéditas, destaque para Além da Máscara, composição de Gessinger que trata a questão da análise crítica em relação ao mundo, exaltando um viés mais intimista, Tententender e Breve, compostas pela dupla e podendo ser consideradas o ápice da suavidade do álbum. Já a faixa Pouca Vogal representa bem a banda: pouca vogal / clássico grenal / swing esquisito / sem favorito. Era exatamente essa “esquisitice”, a fuga da zona de conforto, que o gremista Gessinger e o colorado Leindecker pretendiam.

Desde o lançamento do CD, a Pouca Vogal não para e segue fazendo shows por todo o país com seu formato simples de acústico: um banquinho e um violão. Ou melhor: dois banquinhos, um violão e uma viola caipira. E um piano, um teclado, uma guitarra, uma percussão e um pandeiro. Muitos instrumentos, poucas mãos. Mas quando o talento é grande, não importa se as coisas são de mais ou de menos.  

E, na falta de mãos, os pés. Aí é que está o grande diferencial da parceria. Tão importante quanto às canções que tocam, é a maneira como eles as executam. Cada um deles toca vários instrumentos: Gessinger é responsável pelo som do violão, da viola caipira, das harmônicas, do piano e da MIDI Pedalboard, um teclado tocado com os pés; Leindecker domina a guitarra, o violão e, com os pés, a percussão, o bombo leguero e o pandeiro. É admirável a desenvoltura dos gaúchos ao tocar diversos instrumentos simultaneamente, transcendendo o formato tradicional dos acústicos.

Depois do solo, o duo é o mínimo, mas pode rolar o máximo de diálogo musical. Gessinger acertou em cheio ao proferir essas palavras. O que se vê em Pouca Vogal é o dinamismo entre duas pessoas que estão dialogando o tempo todo. Uma fusão das particularidades, das consoantes de cada um. Os gaúchos vêm para provar que menos, em muitos casos, pode significar mais.

Artistas: Pouca Vogal 
Disco: Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre
Gravadora: Som Livre

Preço: R$ 19,90

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