Quando o mar falou
Com “Canções Praieiras”, Dorival Caymmi apresentava ‘a voz da praia’ ao público brasileiro, inovando, impressionando e encantando o País
Por Eduardo Donida
Com “Canções Praieiras”, Dorival Caymmi apresentava ‘a voz da praia’ ao público brasileiro, inovando, impressionando e encantando o País
Por Eduardo Donida
“Não parece coisa feita por gente: parece o canto das coisas em si". Assim descreveu Arnaldo Antunes (cantor e compositor) o primeiro disco do baiano Dorival Caymmi, um dos músicos brasileiros mais reconhecidos e valorizados dentro e fora do País e que soube, como ninguém, descrever a sociedade, a cultura e a vida de seus conterrâneos, com canções que se tornaram símbolos não só de sua música, mas da própria cultura e identidade brasileiras.
Lançado em 1954, ainda em LP (e hoje já reeditado em CD), Canções Praieiras foi o precursor de um novo gênero musical, nome do álbum, criado por Caymmi e jamais reproduzido na música nacional. O disco conta apenas com oito faixas e, embora ainda não divulgue todo o potencial daquele que viria a ser um ícone da MPB, já traz músicas que até hoje estão entre os seus maiores sucessos, como O bem do mar e Quem vem pra beira do mar. No repertório, o artista baiano retrata o cotidiano, pinta musicalmente a realidade, e vai além. Contando apenas com voz e violão, em ritmo suave, mas imponente, Dorival inova a forma de se apresentar e transcende a descrição das cenas pelas letras das músicas. Em seu primeiro álbum, o único instrumento em ação serve como recurso cinematográfico, sendo capaz de desenhar as paisagens e o cenário retratado nas canções.
Por exemplo, na canção Pescaria (O Canoeiro), o violão age como um remo, que bate na água, um braço que puxa a corda, um corpo que colhe de volta a rede; em O Mar, o instrumento já toma novos rumos: primeiramente, assemelha-se ao movimento da maré, lento, leve, tornando-se, em seguida, dramático, agitado, pesado, no intuito de contar a história da morte de Pedro e do enlouquecimento de Rosinha, personagens centrais no enredo. Esse violão mimético é a mais marcante característica das canções praieiras, criadas e interpretadas por Caymmi. Transformando-se nas coisas, ele consegue apresentá-las, representá-las, atribuindo ao disco um sentido mais profundo e figurativo.
Outra canção que se destaca no disco é É doce morrer no mar, composição feita em parceria com o escritor Jorge amado e que está eternizada na voz do baiano de Salvador. Os versos simples e espontâneos de Caymmi ainda ajudaram a colocar a Lagoa do Abaeté e a Praia de Itapoã na geografia sentimental do Brasil, com as músicas A lenda do Abaeté e Saudade do Itapoã.
Como descreve o poeta e letrista Paulo César Pinheiro, em seu poema Obá de Xangô: “Seu violão tem as cordas de sargaço, que foi cortado de alguma velha embarcação. Caymmi é um Deus do mar reencarnado, por isso que o seu canto é uma oração”. Como dizia o poeta, Caymmi tinha espumas no cabelo, ele era a representação e exposição perfeita do ambiente que se propunha a descrever.
Influência para grandes nomes da música brasileira (como Caetano Veloso, Tom Jobim, Gilberto Gil, Chico Buarque, João Bosco e Tom Zé) e considerado um mestre no assunto, Dorival Caymmi teve sua obra interpretada pelos mais variados e bem conceituados artistas do País: passou por vários estilos, desde o samba-canção, até então praticado apenas por Noel Rosa; até a bossa nova, com Tom Jobim e João Gilberto, que gravou Rosa Morena e Saudade da Bahia e conduziu a música do baiano da praia ao ritmo que conquistaria o País a partir do final da década de 1950. Entre seus maiores sucessos pode-se ainda acrescentar O que é que a baiana tem?, interpretado por Carmen Miranda, e Você já foi à Bahia?.
Reconhecido e premiado em vários países, Dorival Caymmi foi considerado, por muitos, como preguiçoso, já que levava muito tempo para compor. Talvez, por isso, sua obra não seja tão vasta. O baiano compôs cerca de uma centena de músicas, distribuídas em 20 álbuns. Morreu em abril de 2004, aos 94 anos de idade, deixando um legado pouco extenso, mas de valor incomparável. Já dizia Caetano Veloso: “Eu escrevi 400 canções, e Dorival Caymmi, pouco mais de 120. Mas ele tem 120 canções perfeitas, e eu não”.
Artista: Dorival Caymmi
Disco: Canções Praieiras
Gravadora: Odeon
Preço: R$ 50 (LP) / R$ 25 (CD)
Artista: Dorival Caymmi
Disco: Canções Praieiras
Gravadora: Odeon
Preço: R$ 50 (LP) / R$ 25 (CD)
Boa Tarde amigo!
ResponderExcluirVc ainda tem esse vinil para venda?
obrigado
Vcs ainda tem esse lp?
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