O medo em minha vida nasceu muito depois
Após o experimentalismo do seu antecessor, em “Minas” Milton Nascimento revisita e homenageia livremente suas raízes.
por Gilberto Neto
Que Milton Nascimento é um grande expoente da música popular brasileira todos sabem, mesmo assim, revisitar sua carreira prolífera ainda é certamente um dos melhores exercícios para conhecer a poética musical em língua portuguesa, e não constitui um esforço, mas um prazer raro.
Milton Nascimento – e todo o séquito musical mineiro – irrompeu no cenário musical a partir de 1967, com o disco Milton Nascimento e a conquista do segundo lugar no Festival Nacional da Canção, pela música Travessia (na mesma edição conquistou também o prêmio de melhor intérprete). Ficou claro que havia algo de especial acontecendo nos recônditos do país. Havia ainda algumas joias habitando as Minas Gerais, que não tardaram a mostrar-se.
Tal qual Lennon e McCartney sete anos antes, o início da amizade entre Milton Nascimento e Márcio Borges, em 1963, originou um convívio musical intenso que resultou em composições que formaram os primeiros discos de Milton. Entre bares e saraus, filmes de Truffaut e longas madrugadas nas esquinas das ruas Paraisópolis e Divinópolis, em Belo Horizonte, encontrava-se um grupo de identidades musicais distintamente correlatas, formado por jovens amantes de poesia, música e literatura, e crescia por suas próprias veleidades artísticas. Florescia, mineiramente, longe dos olhos dos marechais. Entretanto, o grupo musical mineiro só expressou-se com um título em 1972, quando gravou o lapidar Clube da Esquina.
“Minas”, lançado em 1975, é um dos pontos altos de uma década profusa, em que Milton Nascimento caminhou do lírico ao experimental sem cair em desencontro. Mas o significado de Minas vai muito além da correspondência com a década de ‘70 – Minas é um relicário de lugares, impressões e influências: um fôlego, enfim.
O disco inicia em uma vozearia que prescinde de palavras para carregar o título: o enlevo da primeira canção é como um abrir janelas. “Fé cega, faca amolada”, a segunda música do disco (na voz de Beto Guedes) continua a introspecção. Só em “Beijo partido” há espaço para amargura.
O que vem a seguir, ainda no lado A, é uma sequencia de músicas que rememoram uma meninice idílica e retratam a atmosfera pueril sob qual parte o ponto de vista do narrador. Distintamente, estas peças-centrais para o contexto evocativo do disco, aludem ao tema “crescimento”. Do deslumbramento em “Gran circo”, saudosismo em “Ponta de areia” ao amadurecimento em “Saudade dos aviões da Panair”, Milton Nascimento refaz seus passos do início da vida.
No lado B a sensação de familiaridade dá ao lugar ao estranhamento em “Trastevere”. A bela “Idolatrada” e a simplicidade enganosa de “Leila (venha ser feliz)” são seguidas por “Paula e Bebeto”, composta por Caetano Veloso. “Simples” com sua bela conjunção melódica é acentuada profundamente pela interpretação sôfrega de Milton Nascimento - por isso até a letra escapa agradavelmente aos ouvidos. Milton reencontra sua já declarada influência dos Beatles, imprimindo sua personalidade à enigmática “Norwegian wood”, de John Lennon. O apuro é tamanho que “Caso você queira saber” parece sobejar.
“Minas” representa à carreira de Milton não só um amadurecimento estilístico – que ele já havia alcançado em discos anteriores – nem somente abrilhanta o percurso musical deste cantor que não parece carecer de recursos, mas é um retrato mais que fiel de um artista que não se prende às coisas passadas nem também as esquece. Sua terra ainda seria substrato para outra obra: “Geraes”, de 1976.
Artista: Milton Nascimento
Disco: Minas (1975)
Gravadora: EMI/Odeon
Preço: R$14,90
Após o experimentalismo do seu antecessor, em “Minas” Milton Nascimento revisita e homenageia livremente suas raízes.
por Gilberto Neto
Que Milton Nascimento é um grande expoente da música popular brasileira todos sabem, mesmo assim, revisitar sua carreira prolífera ainda é certamente um dos melhores exercícios para conhecer a poética musical em língua portuguesa, e não constitui um esforço, mas um prazer raro.
Milton Nascimento – e todo o séquito musical mineiro – irrompeu no cenário musical a partir de 1967, com o disco Milton Nascimento e a conquista do segundo lugar no Festival Nacional da Canção, pela música Travessia (na mesma edição conquistou também o prêmio de melhor intérprete). Ficou claro que havia algo de especial acontecendo nos recônditos do país. Havia ainda algumas joias habitando as Minas Gerais, que não tardaram a mostrar-se.
Tal qual Lennon e McCartney sete anos antes, o início da amizade entre Milton Nascimento e Márcio Borges, em 1963, originou um convívio musical intenso que resultou em composições que formaram os primeiros discos de Milton. Entre bares e saraus, filmes de Truffaut e longas madrugadas nas esquinas das ruas Paraisópolis e Divinópolis, em Belo Horizonte, encontrava-se um grupo de identidades musicais distintamente correlatas, formado por jovens amantes de poesia, música e literatura, e crescia por suas próprias veleidades artísticas. Florescia, mineiramente, longe dos olhos dos marechais. Entretanto, o grupo musical mineiro só expressou-se com um título em 1972, quando gravou o lapidar Clube da Esquina.
“Minas”, lançado em 1975, é um dos pontos altos de uma década profusa, em que Milton Nascimento caminhou do lírico ao experimental sem cair em desencontro. Mas o significado de Minas vai muito além da correspondência com a década de ‘70 – Minas é um relicário de lugares, impressões e influências: um fôlego, enfim.
O disco inicia em uma vozearia que prescinde de palavras para carregar o título: o enlevo da primeira canção é como um abrir janelas. “Fé cega, faca amolada”, a segunda música do disco (na voz de Beto Guedes) continua a introspecção. Só em “Beijo partido” há espaço para amargura.
O que vem a seguir, ainda no lado A, é uma sequencia de músicas que rememoram uma meninice idílica e retratam a atmosfera pueril sob qual parte o ponto de vista do narrador. Distintamente, estas peças-centrais para o contexto evocativo do disco, aludem ao tema “crescimento”. Do deslumbramento em “Gran circo”, saudosismo em “Ponta de areia” ao amadurecimento em “Saudade dos aviões da Panair”, Milton Nascimento refaz seus passos do início da vida.
No lado B a sensação de familiaridade dá ao lugar ao estranhamento em “Trastevere”. A bela “Idolatrada” e a simplicidade enganosa de “Leila (venha ser feliz)” são seguidas por “Paula e Bebeto”, composta por Caetano Veloso. “Simples” com sua bela conjunção melódica é acentuada profundamente pela interpretação sôfrega de Milton Nascimento - por isso até a letra escapa agradavelmente aos ouvidos. Milton reencontra sua já declarada influência dos Beatles, imprimindo sua personalidade à enigmática “Norwegian wood”, de John Lennon. O apuro é tamanho que “Caso você queira saber” parece sobejar.
“Minas” representa à carreira de Milton não só um amadurecimento estilístico – que ele já havia alcançado em discos anteriores – nem somente abrilhanta o percurso musical deste cantor que não parece carecer de recursos, mas é um retrato mais que fiel de um artista que não se prende às coisas passadas nem também as esquece. Sua terra ainda seria substrato para outra obra: “Geraes”, de 1976.
Artista: Milton Nascimento
Disco: Minas (1975)
Gravadora: EMI/Odeon
Preço: R$14,90
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