quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Clássicos - Tom Jobim & Elis Regina - Elis & Tom
O Tom certo para Elis
A reunião entre o mestre da bossa nova e uma das maiores cantoras que o Brasil já deu aos palcos resultou num encontro que permanece marcado até hoje
Por Camila Almeida
Águas de Março repletas de risos, assobios e respirações não vêm para fechar nenhum verão. Iluminada, brilhante, distante de chuva ou sombra qualquer, a música de abertura de Elis & Tom inaugura uma parceria que esbanja intimismo e qualidade musical. As composições e o piano de Tom ganharam outra vida na voz da musa da música popular brasileira. A bossa e a melancolia que dão corpo ao disco fizeram com que maestro e cantora ficassem embalados numa parceria consolidada desde sempre e para sempre.
Uma década de Elis Regina na gravadora Philips merecia comemoração, com direito à produção de um álbum memorável. Em 1974, a intérprete teve a oportunidade de escolher o presente que receberia, e quis gravar com o mestre Antonio Carlos Jobim. Compositor da maioria de suas canções, dentre elas clássicos como “Corcovado” e “Chovendo na Roseira”, Tom já fazia parte da carreira de Elis. Além disso, seu nome já integrava outros duetos inesquecíveis: Tom e Vinícius, e Chico, e Newton Mendonça. O encontro Tom e Elis consolidaria a união de dois dos maiores musicistas que o Brasil já pode apresentar.
Não era preciso trazer nada de novo. O ritmo, os acordes, o timbre, os instrumentos, tudo saiu do jeitinho que já se sabia. A proposta não era revolucionar a música popular brasileira. Não se queria anunciar a novidade, o inesperado, o diferente. O encontro Elis & Tom apresenta as canções que se sabia de cor, que emocionaram gerações, numa coletânea enriquecida por uma Elis Regina na sua melhor forma e pelo magistral Tom Jobim, com toda a calmaria e o preciosismo conhecidos.
Quem recebe toda a carga emotiva presente no disco não imagina que o clima das gravações era repleto de tensões. No estúdio da MGM, em Los Angeles, Estados Unidos, o entrosamento entre a dupla foi difícil de alcançar. Tom se mostrou insatisfeito com o fato de não ser o responsável pelos arranjos, que ficaram sob os cuidados de César Camargo Mariano, marido da cantora. O piano elétrico de César, que Elis defendia como o símbolo da modernidade, também fez a erudição de Tom torcer o nariz. Mas, uma vez conformado com os quiprocós da produção, o maestro se rendeu à beleza que o álbum tinha em potencial, e viu seu piano de fora em apenas quatro faixas do disco.
Tom incorpora sua voz à de Elis em três faixas: “Águas de março”, “Soneto de separação” e “Chovendo na Roseira”. Em “Corcovado” e “Inútil Paisagem”, por exemplo, se limita a contracantos. A maioria das músicas é interpretada apenas por Elis, num vocal apaixonado, extremamente afinado como de costume, e com a respiração sobrando ao microfone. O violão suave e a batida leve da percussão acompanham a levada emocionada, à beira do choro, que Elis ofereceu às canções.
Em 2004, o disco foi remixado em seis canais (5.1) para ser lançado no formato de DVD-áudio. Todas as faixas do LP original estão presentes, mas enriquecidos com elementos do estúdio como batidas de pés no chão para marcar o compasso e diálogos entre a dupla. A inédita “Bonita”, cantada pelos dois, também faz parte do álbum renovado.
Em meio aos corações dilacerados, à espuma em que se tornaram as bocas unidas e aos fins de caminho repletos de paus e pedras, estão lançados os corações de músicos que, ainda bem, tiveram a graça de se encontrar em estúdio. Elis Regina e Tom Jobim, numa união perfeita, fizeram um pacto que venceu o tempo, com suas versões eternizadas tais quais sonetos e retratos em branco e preto.
Artista: Tom Jobim e Elis Regina
Disco: Elis & Tom (1974)
Gravadora: Polygram
Preço: R$ 25
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário