quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Brasil - Marcelo Camelo - Toque Dela


Faltando aquele toque
Novo trabalho solo de Marcelo Camelo, Toque Dela reafirma seu talento, mas ainda é insuficiente para consagrá-lo como referência da música brasileira

por Mano Ferreira

“Triste é viver só de solidão”. Foi assim, com este verso arrebatador e em claro diálogo com Triste, música de Tom Jobim imortalizada na voz de João Gilberto, que o cantor e compositor Marcelo Camelo escolheu introduzir o seu novo trabalho, o álbum Toque Dela.

Conversar com os grandes é sempre um sinal de ousadia. Chamar a responsabilidade da tarefa, no entanto, pode acabar soando prepotente e, em certos casos, ingênuo demais: se o mundo é melhor contemplado sobre os ombros de gigantes, também é verdade que a altura do palco exige mais rigor sobre a análise artística.

Além de sua intertextualidade, a qualidade do verso debutante, com minialiterações e gradual desenvolvimento dos fonemas (onde um som convida o outro para, enfim, dormirem juntos), demonstra o inicial sucesso da empreitada de Camelo, assim como o grande potencial do autor. Por outro lado, uma audição mais atenta das dez músicas componentes do disco e uma análise do que elas significam dentro da carreira do cantor sugerem um talento conduzido indevidamente.





Na faixa Acostumar, de rimas pobres e versos preguiçosos como uma música baiana (posso até me acostumar / aaa / e deixar você fugir / iiiii / posso até me acostumar / aaa / da gente se divertir / iii), o compositor faz uma espécie de confissão: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”. A ambiguidade do trecho consegue sintetizar, provavelmente por acaso, a fronteira que Camelo enfrenta: entre o prazer de uma vida despretensiosa, ao antigo “deixa ser como será”, e a acomodação estética, sob falta de norte pelos caminhos do processo criativo.


Marcelo Camelo iniciou sua carreira como vocalista da banda Los Hermanos, lançando cd homônimo em 1999. Ano em que explodiu seu primeiro e pegajoso hit, Ana Júlia, que chegou a ser gravado até pelo ex-Beatle George Harrison. Após uma extensa agenda de shows maracanãnicos e intrigas com a gravadora, o quarteto carioca, que também incluía Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba, decidiu mudar de rumo para se livrar de determinações comerciais imediatistas e deixou de lado sua tendência hardcore. Em 2001, no disco Bloco do Eu Sozinho, investiram suas fichas no sincretismo (já anteriormente presente, mas de forma bastante discreta) entre rock e música brasileira, em especial o samba. Essa tendência foi ainda mais aprofundada nos trabalhos vindouros, Ventura (2003) e 4 (2005). Em 2007, a banda anunciou recesso por tempo indeterminado e seus componentes passaram a se dedicar a outros projetos, sendo Camelo o único a enveredar por carreira solo - estreia que se deu no ano seguinte, com o lançamento de Sou.

Mudanças de rota fazem parte da trajetória de Camelo: sua banda nasceu na cena underground carioca, foi descoberta no festival recifense Abril Pro Rock, transformou-se no sucesso do verão (desses que costumam ser esquecidos antes do sol se pôr), assinou carta de alforria da gravadora, voltou a tocar para pequenos públicos e, enfim, cresceu de modo sustentável, a medida em que sua música amadurecia e seu público se consolidava. Neste processo, as composições de Marcelo chamaram atenção de importantes nomes da MPB, desde Maria Rita, a maior promessa de sua geração, até Ney Matogrosso, que dispensa apresentações, passando por Ivete Sangalo, a super estrela do axé.

O destaque que as composições do hermano atingiram no cenário musical brasileiro ainda não foi retumbante o bastante para firmá-lo no roll dos maiores: falta-lhe o fôlego de um álbum solo consistente, lacuna que deveria ter sido suprida com seus últimos discos, mas não foi.

É notável a transformação na sua maneira de compor. Em sua fase mais prodigiosa, o carioca demonstrava interesse por explorar múltiplos sentidos através de recursos estilísticos como jogos de palavras e figuras de linguagem. Somando-se a isso, arranjos e construções harmônicas que, longe de aprisionadoras, bebiam na fonte da tradição musical brasileira, aproveitando especialmente a riqueza melódica do conjunto de metais. Nos últimos tempos, Camelo tentou se afastar de métodos convencionais e adentrou por experimentalismos que valorizam a espontaneidade. “Pra gente se perder, amor, nesse doce tanto faz”, diz uma parte de Pretinha.




Pessoalmente (não podemos medir) deve ser ótimo o resultado desse estado de espírito. Musicalmente (nós podemos ouvir) certos experimentos trouxeram texturas diferenciadas – ora na linha percussiva, ora em notas dissonantes –, mas que não acrescentaram valor artístico. Restou a sensação de que um pouco menos de “tanto faz” renderia aquele toque que faz falta.

Artista: Marcelo Camelo
Disco: Toque Dela
Gravadora: Universal
Preço: R$ 25

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