quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Clássicos - Talking Heads - Stop Making Sense (DVD)
Cabeças que falam, dançam e empolgam
Em Stop Making Sense, Talking Heads mostram suas melhores qualidades e criam um dos melhores filmes de concerto de todos os tempos
por Pedro Monteiro
Os americanos do Talking Heads sempre foram muito respeitados por conseguirem fazer música que agrada aos críticos e ao público em geral. Música criativa, inovadora, cheia de influências diversas, e ao mesmo tempo, dançante, energética e divertida. Ao se juntar com o diretor Johnathan Demme – que depois ganharia o Oscar por Silêncio dos Inocentes – o que vemos em Stop Making Sense (1984), é uma demonstração perfeita das características citadas acima: um filme de concerto original, diferente da maioria dos filmes que vieram antes, e influência para vários que vieram depois, mas ao mesmo tempo é um filme que simplesmente mostra uma banda empolgante que é capaz de fazer um ótimo show.
As inovações estilísticas são inúmeras, a começar pela introdução. Um plano-sequência contínuo dos pés de David Byrne mostra a sua chegada ao palco, munido apenas de um violão e um boombox. Após informar que “tem uma fita que gostaria de tocar”, o vocalista da banda dá play numa simples batida de bateria eletrônica, que dá inicio a um dos maiores sucessos da banda, Psycho Killer.
Iniciar um show com um enorme sucesso poderia ser perigoso, principalmente quando é executado sem a memorável linha de baixo. A música podia ser o início de um show em sentido descendente, mas os Talking Heads levam o show por outro caminho. Gradualmente, o palco vai sendo preenchido por cada um dos membros principais da banda: Tina Weymouth, a baixista, é a primeira a entrar, seguida por seu marido, o baterista Chris Frantz e por último, entra o guitarrista e tecladista Jerry Harrison. O show vai ganhando pique, e durante as músicas, membros de apoio vão se juntando. Entram tecladista, guitarrista, percursionista, backing vocals e o cenário do palco é montado, e o show fica cada vez mais energético.
A energia da banda é muito melhor capturada no show do que na maioria dos álbuns de Talking Heads. Burning Down The House, a primeira música tocada com a banda completa, tem seu ritmo empolgante e seu refrão gritado potencializados no concerto. Life During Wartime, que contém a icônica frase “this ain’t no party, this ain’t no disco”, é, na verdade, uma festa. David Byrne dando voltas no palco enquanto toda a banda praticando cooper coreografado contagiam e deixam a música ainda mais dançante.
Johnathan Demme, diretor do filme, encontra uma forma muito original de filmar toda essa energia dos Talking Heads no palco. Escolhendo não se influenciar pela edição em cortes rápidos, pelos closes em instrumentos durantes os solos, forma de filmar música que tinha se popularizado bastante com a recém-criada e popular MTV, Demme captura o show em seqüencias longas e de plano médio. O truque ajuda a fortalecer a atmosfera inovadora e original do filme. Durante o concerto raramente se utilizam luzes coloridas, outro aspecto muito bem explorado pelo diretor.
Durante mais da metade da duração de Once In a Lifetime, por exemplo, vemos apenas David Byrne, filmado num claro-escuro que lembra quadros barrocos, cantando a música e dançando de sua forma peculiar.
Byrne, na verdade, é um show à parte em Stop Making Sense. Suas idiossincrasias, seu jeito de cantar quase sempre com um sorriso e seu entusiasmo deixariam qualquer show empolgante. Mas o vocalista também trata de tornar o show inovador. Desde sua introdução com o boombox em Psycho Killer, passando por brincadeiras com um abajur em This Must Be the Place (Naive Melody), Byrne usa desses acessórios para elevar o show para uma verdadeira performance.
O objeto mais icônico, claro, é o terno gigante. Presente na capa do vídeo, o terno é uma referência – segundo o próprio Byrne – ao Noh, uma forma de teatro clássica japonesa, onde o protagonista se veste com uma roupa gigante. David Byrne usa o terno como forma de potencializar sua peculiaridade. Sua forma de dançar fica ainda mais curiosa com a roupa, e ele se aproveita disso para tornar o show ainda mais performático.
Combinado a todo esse festival de inovações de imagem, a engenharia de áudio do filme é louvável. O filme foi gravado durante três shows em dias seguidos, e por isso, a banda e o diretor puderam escolher as melhores versões de cada música, tanto visualmente como sonoramente, e todo o filme passou por mixagem e filtragem em pós-produção, o que dá ao filme um som de estúdio.
Durante a fim da última música, Crosseyed and Painless, o diretor finalmente foca na platéia, algo que não acontece em nenhum outro momento. As danças frenéticas do público exemplificam bem a capacidade de Talking Heads de emanar energia e durante um show. Segundo David Byrne, a decisão de mostrar a platéia no final serve para que o espectador possa formar sua própria opinião sobre o concerto. Difícil é encontrar alguém que, ao final do filme, também não esteja dançando.
Artista: Talking Heads
Obra: Stop Making Sense (1984)
Distribuidora: Palm Pictures
Preço: R$34(DVD)/R$60(Blu-ray)
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