por Márcio Bastos
Em 1993, quando lançou seu quinto disco, "Janet.", Janet Jackson estava no topo da sua carreira. Aos 27 anos, ela já havia vendido milhões de cópias de seus CDs e singles, e não era mais ofuscada pela sombra do seu irmão, Michael. Mas, foi apenas com o “Janet.” que a cantora apresentou ao público outras facetas da sua personalidade, e, principalmente, de sua musicalidade. Nele, ela deixou para trás a imagem recatada para falar do que viria a ser seu assunto favorito pelas próximas décadas: o sexo.
Ser uma Jackson talvez tenha atrapalhado mais do que contribuído para o sucesso da caçula da família, Janet. Seus dois primeiros álbuns foram fracassos retumbantes. Eram CDs corretos, mas sem alma. O peso do sucesso de sua família – em especial de Michael – exercia sobre ela uma pressão que a fez pensar em desistir da carreira. Foi apenas no seu terceiro trabalho, “Control” (1986), que a cantora iniciou um período de dominação das paradas musicais que durou mais de duas décadas. Com produção de Jimmy Jam e Terry Lewis, dupla que viria a trabalhar com a cantora em todos os seus álbuns posteriores, “Control” apontou novas direções artísticas para Janet.
O sucesso foi avassalador, e o CD figura, até hoje, entre os mais importantes da história do pop e do r&b. Ainda colhendo os frutos do êxito de “Control”, Janet lançou o álbum conceito “Rhythm Nation 1814” (1989), no qual ela continuava o processo de expansão do seu repertório temático e sonoro. Foram mais de 14 milhões de cópias vendidas, consolidando-a como um dos maiores fenômenos da música pop.
Em 1991, com o frenesi em torno do seu nome, Janet se tornou alvo de todas as grandes gravadoras. Assinou com a Virgin Records e, aos 24 anos, se tornou a artista mais bem paga da época. Seu próximo disco, portanto, já nascia cercado de expectativas. Em 1993, ela lançou o “Janet.” (se lê Janet, ponto), obra fundamental para se entender o que seriam as próximas duas décadas na carreira da cantora (e das artistas norte-americanas de r&b).
Na capa do álbum, o rosto da cantora, em close, encara diretamente a câmera. Sua expressão é enigmática, quase convidativa. Na foto inteira, estampada na capa da Rolling Stone, a cantora aparece com as mãos sobre a cabeça, a calça jeans desabotoada e seus seios cobertos pelas mãos do seu então marido, René Elizondo Jr. Essa imagem é, provavelmente, a melhor tradução do espírito do “Janet.”.
Se nos dois discos anteriores Janet cantava sobre independência (“Control”) e injustiça social (Rhythm Nation), agora era o sexo o motor das suas canções. Em “Janet.” sexo é sinônimo de prazer, e ela não economiza em gemidos e sussurros para provar que está gostando (e muito) dessa nova fase. Da primeira à última música, o disco explora a figura de Janet como um ser sexual, rompendo de vez com a imagem puritana que antes ela construíra.
Assim como nos seus dois últimos trabalhos, em “Janet.”, a produção fica a cargo dos músicos Jimmy Jam e Terry Lewis, além da própria cantora, que co-produz todas as faixas. Nele, Janet expande ainda mais seu leque musical, passeando por influências como hip hop, rap, jazz e house music. Também pontua o disco o uso intenso de samples - de The Supremes a James Brown – característica que seria aprofundada em todos os discos posteriores da cantora.
No ótimo acid jazz “That’s The Way Love Goes”, primeiro single do álbum, a cantora utiliza bem seus limitados vocais, aproveitando o que há de melhor na sua voz – a suavidade. O clima intimista da canção é quebrado logo em seguida, com “You Want This”. O disco entra, então, em um bloco dançante, marcado por batidas fortes, que, por vezes, se sobressaem à voz de Janet. É o caso de “If”, cujos riffs de guitarra, somados à batida seca característica de Jimmy Jam e Terry Lewis, quase suprimem os vocais de sua intérprete, mas o resultado final acaba adquirindo uma sonoridade singular, se distinguindo do que seus contemporâneos estavam fazendo.
Na surpreendente “This Time”, ela divide os vocais com a cantora de ópera Kathleen Battle. A interpretação raivosa da caçula dos Jacksons está entre as melhores de sua carreira. Outra participação marcante no disco é a do rapper Chuck D, na faixa “New Agenda”. Nela, Janet tece uma crítica ao racismo e à misoginia. No entanto, ao contrário do “Rhythm Nation”, onde temas sociais eram abordados sob uma perspectiva mais sociológica, aqui, a cantora se põe como sujeito da ação. É um movimento importante na sua discografia, com a artista introduzindo sua psique com mais intensidade em suas obras.
No disco, Janet explora ritmos inéditos na sua discografia, como a house music na faixa “Throb”, um dos melhores momentos do trabalho. Esse mergulho em outras águas dá ao “Janet.” uma sonoridade menos dura do que a de seus discos anteriores, inclusive tornando-a uma artista mais acessível para o mercado internacional. Além disso, o caráter eclético do disco exerceu forte influência nos discos de suas sucessoras, como Aaliyah e TLC, pavimentando o caminho para que as artistas de r&b pudessem explorar novas searas musicais com mais frequência.
Ela ainda flerta com o country em “What I’ll Do” e com no funk, na enérgica “Funky Big Band”, uma das melhores do disco. Essa primeira parte do “Janet.” é tão vigorosa e eclética que poderia soar como a simples junção de singles aleatórios. O grande mérito de Janet, Jimmy Jam e Terry Lewis é exatamente deixar a impressão de que essa salada musical funciona muito bem como uma narrativa fechada.
Da metade para o final, o CD diminui o ritmo, com as batidas frenéticas de Jam & Lewis dando lugar às baladas. São nesses momentos que a presença de Janet brilha mais. Canções como “The Body That Loves You” e “Any Time, Any Place” se beneficiam da voz cristalina (e dos gemidos) da cantora. A melódica "Again", composta para o filme “Poetic Justice”, no qual também protagoniza, garantiu a Janet uma indicação ao Oscar de canção original, além do primeiro lugar nas paradas norte-americanas.
Assim como no “Rhythm Nation”, aqui as canções são entrecortadas por interludes, que servem como espécie de introduções, ou passagens, para a música seguinte. Outros artistas, como TLC e Destiny’s Child, retomaram essa tradição, declaradamente influenciadas pelo “Janet.”. Esses pequenos intervalos entre as faixas viriam a ser aprofundados nos discos seguintes da cantora, tornando-se quase uma marca registrada do seu trabalho.
Mesmo não sendo uma vocalista poderosa como algumas de suas contemporâneas, a exemplo de Whitney Houston, Janet soube como poucas explorar suas limitações e transformá-las em qualidades. Assim como Madonna e Michael, sua persona extrapola o quesito estritamente musical. O espetáculo, os videoclipes e seus números de dança são elementos preciosos para se entender o conceito de superstar consolidado por essa tríade e seguido por praticamente todo aspirante a astro pop nas décadas posteriores.
“Janet.” foi o primeiro passo da cantora em direção a uma sonoridade mais aberta, ao mesmo tempo em que se voltava mais para si mesma. Esse movimento atingiria seu ápice no disco seguinte, “The Velvet Rope” (1997), seu trabalho mais íntimo e tematicamente obscuro. “Janet.” marcou também a transformação de Janet Jackson em ícone da música negra norte-americana, com influência na música, cinema, comportamento e moda.
Aqui, é interessante observar a ousadia da artista em se desvincular abruptamente do estigma de “queridinha da América” para apostar em uma postura madura, tomando o sexo como tema de seu trabalho. Ainda que tenham abordagens diferentes do mesmo assunto, “Janet.” surge da mesma linhagem do “Erotica”, de Madonna. Da masturbação ao coito assistido por voyeurs, o ato sexual é explorado no “Janet.” como uma forma de autoconhecimento, da elevação através do prazer.
O disco superou seus antecessores em termos de vendas, e principalmente, no quesito de influência. É listado pelo Rock’n’Roll Hall of Fame como um dos 200 álbuns definitivos da história da música, e sua influência pode ser sentida até hoje em artistas como Beyoncé e Ciara. Ainda que não seja considerada sua obra-prima, o disco marca o auge do processo criativo da multiartista. Enquanto manifesto artístico, ela parece muito mais orgânica e “no controle” do que no álbum de 1986. A mensagem de Janet era clara: a partir daquele ponto, ela não aceitava mais a alcunha de “irmã de Michael”. Ela é Janet. Ponto.
Artista: Janet Jackson
Disco: janet. (1993)
Gravadora: Virgin
Preço: R$64,90 (importado)
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