quarta-feira, 23 de novembro de 2011
Gringo - Adele - 21
Clube do coração partido
“21”, segundo disco da britânica Adele, já é o disco mais vendido do ano. Nele, a cantora transforma sua dor em arte e, assim, promove uma catarse coletiva.
por Márcio Bastos
Quanta diferença faz dois anos. Que o diga a cantora britânica Adele. Ela estava saindo da adolescência quando gravou seu primeiro disco, intitulado “19”, sua idade na época. Aclamado pela crítica e com uma recepção moderada do público, o trabalho tinha como fio-condutor o amor, e já mostrava sua voz poderosa e maturidade incomum para a sua faixa etária. Em janeiro de 2011, ela lançou seu segundo CD, “21”. Delicado e poderoso, o disco apresenta a Adele adulta, magoada e no auge da sua potência vocal.
No mundo pop, a ideia de indústria de entretenimento é mais facilmente perceptível do que em qualquer outro estilo musical. Tome-se como exemplos Madonna e Michael Jackson, ou até, mais recentemente, Lady Gaga. O lançamento de seus discos é planejado com os mínimos detalhes, das superproduções videoclipíticas às apresentações quase teatrais em grandes eventos de música. Além da qualidade das canções, a eficiência do espetáculo e da imagem é essencial para se definir o sucesso do produto final.
No entanto, há alguns fenômenos culturais que não podem ser previstos. É o caso de “21”, de Adele. Ainda que seu primeiro disco tenha sido aclamado pela crítica – ganhando inclusive o Grammy de Revelação do Ano –, e as vendas tenham sido boas para uma estreante, a cantora não criou uma audiência global, e ficou mais restrita ao mercado europeu. Mas, assim como já aconteceu com outros artistas, incluindo sua conterrânea Amy Winehouse, foi a dor do fim de um relacionamento que forneceu a ela material para produzir sua obra-prima (até aqui), e conectar-se de forma definitiva com o público.
Se “19” mostrou uma Adele cantando sobre o amor romântico, em “21” o tema central são as feridas abertas provocadas pelo fim do romance. “Rolling In The Deep”, canção de abertura do álbum e primeiro single do trabalho, é um bom exemplo do que se encontrará pelas próximas doze faixas. Com uma voz rasgada, ela declara: “as cicatrizes do seu amor me lembram de nós/ elas me fazem pensar que nós quase tivemos tudo”. Assim como “Rehab”, para Winehouse, “Rolling” serviu como o rastro de pólvora para que todos chegassem ao cerne da dor da cantora.
Ao contrário de sua conterrânea, no entanto, Adele não faz o estilo “coração selvagem”. Sua poética é mais delicada, menos explícita, mas nem por isso, menos eficiente ou cortante. “Someone Like You”, uma delicada balada puxada pelo piano, se tornou um clássico instantâneo. Ao por a voz da cantora em primeiro plano, fica explícita sua habilidade vocal e precisão enquanto intérprete. No mesmo estilo, “Turning Tables” revela a maestria com a qual o álbum foi concebido. Isso porque, convenha-se, a boa e velha fossa pode ser um excelente material criativo, mas pode também tornar o trabalho monotemático e enfadonho. Não é o caso de “21”.
Sim, o fim do seu namoro é a sombra que cobre todo o disco. O sofrimento, a amargura e a solidão estão presentes em todas as faixas. Mas, a cantora e seus produtores conseguem criar uma obra coesa, com variações melódicas e sonoras. “Rumor Has It” flerta com o country, com batidas marcantes de bateria. Já em “Set Fire To The Rain” ela faz a clássica balada própria para cantoras de grande poder vocal, mas adiciona personalidade à interpretação e faz da metáfora tema da música, uma catarse poderosa.
Catarse. É exatamente isso que cantoras com Adele, Winehouse, Nina Simone, Aretha Franklin e outras grandes intérpretes oferecem ao público. Suas dores, tão particulares e, ao mesmo tempo, universais, permitem, através do grito, que expurguemos nossos demônios mais íntimos, que achemos a tradução perfeita para aquele sentimento que não conseguíamos externar.
E a dor de Adele ecoou em muita gente. Tanto que seu álbum já é o mais rentável do ano, com 12 milhões de cópias vendidas, superando a máquina publicitária de grandes artistas pop, como Lady GaGa e Rihanna. Isso talvez prejudique a (merecida) entrada da cantora na lista dos melhores do ano, porque sabe-se a popularização de uma obra, mesmo as de qualidade, faz com que muitos torçam o nariz. Se isso acontecer, será uma pena, porque “21”, se não é o álbum definitivo da cantora (afinal, é apenas seu segundo trabalho), é o testemunho de um momento marcante, tanto para a ela como para o público.
Artista: Adele
Disco: 21
Gravadora: Sony Music
Preço: R$ 24,90
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