quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Brasil - Ivete Sangalo - Ivete Sangalo (De novo, Não!)



“O seu som é canibal, comeu minha audição e agora sou infeliz”
Primeiro álbum solo da baiana Ivete Sangalo sofre por falta de uma identidade musical

por Diego Robeh

A segunda metade da década de 1990 no Brasil foi marcada por uma explosão de bandas e cantores baianos que inundaram as FMs de todo o país com o som pegajoso da Axé Music. O Axé, como gênero musical, já não era nenhuma novidade. Havia surgido com força ainda nos anos de 1970 com o trio e as guitarras elétricas de Dodô e Osmar, passara pelos anos de 1980 rebatizado sob a alcunha do “fricote” tornando conhecidos nomes como Luiz Caldas (aquele mesmo que cantava descalço e entoava “Tieta, Tieta...!), Sarajane (aquela do “Abre a rodinha, meu amor, abre a rodinha...) e Chiclete com Banana (do indefectível vocalista Bel Marques).

Os anos de 1990 trazem consigo uma nova leva de artistas do axé. As músicas continuavam contendo letras de duplo sentido, mas nomes como Netinho, É o Tchan, Daniela Mercury, Banda Eva, Cheiro de Amor, Banda Beijo, entre outros, conquistaram o estrelato nacional em boa parte por conta das Micaretas (carnavais fora de época aos moldes baianos que percorriam o Brasil de norte a sul durante todo o ano) e das massivas aparições em programas de TV.

Ivete Sangalo é produto dessa leva. Depois de cinco anos de muito sucesso à frente da Banda Eva, resolveu lançar-se em carreira solo. O ano era 1999 e o título do álbum de estreia era tão somente “Ivete Sangalo”.

Gravado nos meses de abril, maio e junho no estúdio Impressão Digital no Rio de Janeiro e produzido por Marco Mazzola, o disco traz uma Ivete Sangalo crua e perdida sobre qual caminho adotar em sua carreira como solista. O álbum traz composições da própria Ivete, do líder do Paralamas do Sucesso, Herbert Vianna, de Durval Lelis, vocalista do Asa de Águia, Carlinhos Brown e Luiz Caldas, entre outros. Tamanha miscelânea produziu um álbum que flerta com axé, MPB, música pop e reggae e que, apesar ou principalmente por isso, não possui a menor identidade com nenhum dos estilos musicais que se comprometeu a trabalhar e muito menos com a própria Ivete.

Os pontos menos problemáticos do disco são justamente aqueles em que Ivete é simplesmente Ivete. Em canções como “Bota pra ferver” e “Tô na Rua” a baiana faz o que sabe de melhor: entoar canções com letras simplórias que convidam o ouvinte a “sair do chão”. Com metais pesados e marcações irritantes de percussão no melhor estilo da Bahia de Todos os Santos, tem-se a exata sensação de estar no meio do carnaval de salvador – no que isso tem de pior.

A mistura equivocada de estilos no disco pode ser comprovada com, por exemplo, a participação do cantor Ed Mota em “Medo de amar”. A composição - da própria Ivete – exige uma flexibilidade vocal que a autora/cantora não tem. Por essa razão, todo o “soul” do sobrinho de Tim Maia ecoa sozinho e deslocado em um dueto mais improvável do que seria a Banda Calipso dividir um microfone com João Gilberto. A voz da senhorita Sangalo, inclusive, é um dos grandes problemas do seu trabalho de estreia. Mesmo em canções como “Sá Marina” e “Eternamente” - em que a proposta parece ser a de se aproximar da MPB - temos sempre a sensação de que Ivete está em cima de um trio elétrico comandando a sua horda de fãs pelo circuito Barra/Ondina. Monocórdica, mal empostada e inflexível, Ivete parece capaz de cantar “atirei o pau no gato” e “Ne me quitte pas” no mesmo tom e com a mesma (in)competência.

O álbum conta, ainda, com canções feitas para tocar à exaustão nas rádios. “Canibal”, “Tá tudo bem” e principalmente “Se eu não te amasse tanto assim” estiveram entre as canções mais executadas nos anos de 1999 e 2000 e ajudaram Ivete Sangalo a vender mais de 700 mil cópias. Há ainda, na canção “Canibal”, uma singela homenagem à Xuxa Meneguel, com a citação musical de “Brincar de Índio” – hit da Rainha dos Baixinhos ainda nos anos de 1980 e que, certamente, serviu - e ainda serve - de inspiração musical para, a assim proclamada pelos fãs e parte da mídia, como Rainha do Axé. Cada um tem a realeza que merece.

Artista: Ivete Sangalo
Disco: Ivete Sangalo
Gravadora: Universal
Preço: 14,90
 

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