quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Pernambuco - Team.Radio - Summertime


Embarque no sonho da Team.Radio!Banda pernambucana combina intimismo e competência numa única estação

por Jadiewerton Tavares

Banda de post-rock pernambucana formada em 2008, a Team.Radio propõe um som diferenciado do que se está acostumado em se tratando de Pernambuco. O grupo composto por Roberto Pardal, Thiago Gadelha, André Maranhão, Arthur Azoubel e Marina Silva produzem músicas cantadas em inglês ambientadas sob sintetizadores, timbres suaves e vozes que se assemelham a sussurros, agregando nítida influência de grupos como Clube da Esquina e My Bloody Valentine em sua verve musical. Após sucessivas mudanças em sua formação, a Team.Radio acaba de lançar seu terceiro EP intitulado Summertime através da parceria com três selos virtuais: RockinPress, Sinewave e Popfuzz Records. As cinco faixas do EP mostram as principais características da banda, com músicas longas, experimentalismo e delicadeza nos arranjos.

A faixa homônima possui o aspecto instrumental como predominante sob a liderança de guitarras milimetricamente dedilhadas e sintetizadores que propiciam um espaço para o encontro com os vocais “arrastados” que marcam presença até o final da canção. Já em “French Doll”, os timbres escolhidos são mais incisivos, assim como a bateria, que têm um papel mais atuante com algumas viradas. É canção com apelo mais pop no EP. Sua melodia faz lembrar grupos como The Cranberries ou The Cardigans. A Team.Radio dá continuidade a sua jornada autoral neste EP demonstrando que também prima por variações sonoras numa mesma canção, como é feito na instrumental “Vegas”. A sincronia entre as duas guitarras, a base que o sintetizador proporciona à estrutura da música e o setor rítmico do grupo com a bateria sob diferentes timbres de prato e efeitos percussivos evidenciam a sensibilidade do grupo em compreender o instante em que se deve acelerar ou diminuir o tom em força do intimismo que a própria música permite.

“Come on” apresenta a continuação sistemática da proposta da banda, mas desprovida de qualquer monotonia e repetição. A letra é cantada de forma melancólica e os vários arranjos já tão citados são carregados e têm a companhia de marcações que reverberam a identidade do grupo em seus quase nove minutos de duração que se encerram lentamente. Os 38 minutos que preenchem o EP se encerram com “Albatross” e seu final distorcido, a canção mais triste neste trabalho do grupo.

De fato a Team.Radio demonstra como seus integrantes primam pelo trabalho minucioso e bem executado dentro do que se propõem a fazer, com atmosfera hipnotizante e que no mínimo aguça a curiosidade de quem não acompanha tanto o gênero. A banda dispõe de músicas compostas de forma muito bem detalhadas e envolventes oferecendo ao ouvinte uma verdadeira viagem sonora com clima intimista que sempre se renova e possui elementos que agregam valor e expressão própria ao som do grupo, como vozes bem sincronizadas e um aspecto sonoro surreal e bem executado que comprovam sua competência e completam sua mensagem em favor da música antes de qualquer coisa. Acordes certeiros que demonstram todas as suas habilidades tanto como instrumentistas quanto executando em conjunto são explícitos. Mais uma ótima surpresa pernambucana.

Artista: Team.Radio
Disco: Summertime
Gravadora: RockinPress/ Sinewave/Popfuzz Records
Onde encontrar: www.rockinpress.com.br, www.sinewave.com.br, www.popfuzz.com.br, teamradio.bandcamp.com/album/summertime

Pernambuco - Quatrofonia – O Verbo e O Som (DVD)


Quatro cantos de um só lugar
DVD Quatrofonia traz artistas recifenses com sonoridades individuais, pensamento coletivo e primor pela palavra

por Eline Santos

Com previsão de lançamento oficial pra dezembro, já está nas lojas uma bela novidade da produção musical pernambucana. Quatrofonia é um projeto coletivo que apresenta quatro pocketshows do grupo Rabecado e dos músicos Joaquim Izidro, Sérgio Cassiano e Tonino Arcoverde, aprovado pelo FUNCULTURA e gravado no SESC Santo Amaro, em fevereiro de 2011.

Numa proposta básica e bem produzida, o Quatrofonia vem para destacar as nuances da música feita em Recife, atualmente. Sob quatro caminhos diferentes, a coletividade desses músicos rege todo o trabalho. Outro ponto a destacar é a referência feita no subtítulo O verbo e o som; o primor pelas letras é um elemento que coexiste e é comprovado com a escolha das canções do DVD.

Intercaladas por mini-entrevistas com cada músico, o Quatrofonia inicia-se com uma mescla de músicas de cada banda. O Rabecado, grupo de forró urbano, tradicional e renovado ao mesmo tempo, abre as portas com “Vão”, mostrando o quão universal esse grupo consegue ser. Em seguida, Tonino Arcoverde, veterano em sons e história, traz “Telhados da Várzea”, que descreve com tamanha sutileza essas imagens sob os arranjos que, até sem querer, deixam um ar épico, grandioso. Joaquim Izidro, cearense radicado em Recife há doze anos, começa com “A morte da árvore”, canção que também abre seu CD recentemente lançado (Tempos Vindouros), de toque forte e letra tocante ao descrever sensivelmente um fato dito corriqueiro, como revela o título da música. Fechando o primeiro ciclo de músicas, Sérgio Cassiano, outrora membro do grupo Mestre Ambrósio, executa as canções de seu único CD solo (Ciência da Festa), como quem confirma a alcunha de “artista”, com dinâmicas e performances requintadas.

Em seguida, blocos de depoimentos aliados às composições de cada grupo são mostrados, reiterando a cada acorde a pluralidade musical pernambucana desprovida de rotulações e histórias já manjadas, que enchiam de “beats” e “pseudo-estuários” nossa produção artística. Quatrofonia vem para carimbar aos ouvidos quatro trabalhos únicos e agregados por um pensamento qualitativo, dos dezoito artistas envolvidos, que influencia diretamente nossa percepção do que é nosso.

Tecnicamente, o DVD cumpre suas ideias. Com gravação de áudio e vídeo comandadas pelo Estúdio Carranca e pelo Ateliê Produções, respectivamente, ganhamos mais um produto refinado, que reitera e apresenta sonoridades, visões e carreiras traçadas pelo verbo e pelo som.

Artistas: Tonino Arcoverde, Sérgio Cassiano, Rabecado e Joaquim Izidro
Obra: Quatrofonia – O Verbo e O Som (DVD)
Gravadora: Independente
Preço: R$ 20

Brasil - Lô Borges (Show)


Entrando no Horizonte Vertical
Show do cantor no Sesc Pompéia, em São Paulo, marca o lançamento de seu novo álbum “Horizonte Vertical”.

Por Julia Magnoni

Acompanhado pelos músicos Henrique Matheus (guitarra e violão), Gerson Barral (teclados), Robinson Santos (bateria) e Renato Valente (baixo elétrico), o tímido cantor entra ao palco. Apresentando-se em carreia solo há quase 40 anos e autor de 14 discos, Lô Borges não é nenhum iniciante. Aos 19 anos, ajudou a fundar, com Milton Nascimento, o grupo musical mineiro Clube da Esquina, autores de dois discos que levam o mesmo nome da banda. Desde então, Lô se apresenta ao público brasileiro.

A rotina de entrada ao palco é a mesma que a de tantos outros cantores: caminha calmamente até o centro, apanha seu violão, dá uma olhada para os músicos e engata a primeira canção – Trem de Doido. A composição, original do primeiro disco Clube da Esquina, é o suficiente para fazer com que o público – quase 800 pessoas – embarque em uma viagem nostálgica. Até os que nem vivos eram na época em que as canções foram lançadas sobem neste trem e cantarolam juntos aos versos da “noite azul, pedra e chão”.

Afiados nas notas, os músicos da banda parecem tocar em conjunto sem grande esforço. Pudera! Há 15 anos participam dos shows de Lô Borges. O backing vocals, composto por Henrique, Gerson e Renato durante o refrão, combina com a voz mansa de Lô, escondendo brevemente o fato de que o eco utilizado para imitar a versão original do disco tornou a música um pouco bagunçada.

Após uma pausa para aplausos dos comportados fãs, Lô engata a segunda música do setlist, ainda dos tempos de Clube da Esquina, Paisagem da Janela. A canção de ritmo alegre, com seus versos fáceis de cantar, completa a felicidade do público, que, antes de começar o show, se perguntava se iriam ouvir as músicas da década de 70. Após repetir o verso final (“Um cavaleiro marginal, banhado em ribeirão”), Lô faz sua primeira saudação aos presentes. A aparente timidez fica de lado para dar espaço ao simpático mineiro, com seu sotaque gostoso de Belo Horizonte. Agradece, conta uma rápida história sobre a preparação para a noite, todos riem – mais por descontração do que por achar graça – e fala sobre seu novo CD, Horizonte Vertical. Este show marca seu lançamento. 


O disco, seu 14º e mais recente, conta somente com composições autorais do músico. Em entrevista ao jornal paulista Estadão, Lô explicou que sentiu necessidade de voltar a compor. Ao olhar para trás, via que tinha escrito músicas preciosas na década de 70, um passado do qual se orgulha. No entanto, a partir dos anos 80, sua dedicação à arte passou a desacelerar. O gosto por produzir só reacendeu, segundo o músico, com o nascimento de seu primeiro filho em 1998. A alegria e importância de ser pai o fez pensar em seu trabalho e o que estaria deixando de legado para seu filho sentir orgulho. Resolveu voltar às suas raízes. Bolou uma rotina em que acordava pela manhã, tomava seu desjejum, sentava-se para meditar e observar a vida ao se redor. Depois, começava a escrever, e só parava às seis horas da tarde. Queria ver ampliada sua obra autoral, e conseguiu.

Apesar de o disco ser um trabalho solo, traz participações especiais de outros mineirinhos, como Fernanda Takai, Samuel Rosa, Márcio Borges e o velho amigo, Milton Nascimento. Em meio às antigas parcerias, uma recente se sobressaiu: a participação da musicista paulista Patrícia Maês. Colaboradora de mais da metade das canções no álbum, Patrícia é considerada pelo músico a responsável pelo “frescor” do trabalho. O repertório inteiro foi escrito e gravado em apenas oito meses.

Já no show, era a vez de escutar uma faixa do novo disco. Sem rodeios, Lô inicia com a música que dá nome ao álbum, Horizonte Vertical. A balada, criada em parceria com Nando Reis, mostra que o músico ainda está muito em forma, sim senhor. Tanto na composição harmônica, quanto nas letras e na afinação da voz. A mudança vem no uso de uma bateria mais marcada, com participação mais acentuada do que em seus outros discos, dando à canção um feeling menos acústico do que é esperado nas composições de Lô Borges. O público gostou. Ele, então, continuou com as músicas do novo disco.
Nenhum Segredo, feita em parceria com Patrícia Maês e Samuel Rosa, vocalista da banda Skank, é uma mistura de estilos. Não quero dizer Rock e Samba ou Maracatu e Pagode, mas sim Lô e Samuel. No disco cantam juntos, mas no show o vocal ficou inteiramente a cargo de Lô. Dispensada a banda, a música foi apresentada em voz e violão, dando um gostinho que ficava difícil definir: Skank ou Lô? Não importa, a união foi feliz e os estilos se encaixaram. E ainda mais um ponto positivo: graças ao uso de apenas um instrumento, a letra era inteligível, possibilitando à platéia, ainda pouco familiarizada com o trabalho do novo CD, apanhar a letra – ao menos, do refrão – para acompanhar o músico.

Dando um break das novas músicas, Lô entrou numa lista de canções de sua época áurea. Eu Sou Como Você É, Canção Postal e Homem da Rua, do disco Lô Borges (1972), Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos do disco Clube da Esquina (1972) – talvez sua mais famosa música -, A Via Láctea, do disco de mesmo nome, considerado o mais importante de sua carreira e lançado em 1979.

Entre as músicas, parava para contar causos mineiros, histórias de vida, momentos engraçados. Esbanjava graça e felicidade. Tocou mais algumas do disco novo: On Venus, Xananã, Antes do Sol e Quem Me Chama, que originalmente contam com participação de Fernanda Takai; Você e Eu e Canção Mais Além, ambas dedicadas ao seu filho Luca; O Seu Olhar e De Mais Ninguém, elaboradas juntamente com Patrícia Maês e Ronaldo Bastos; Mantra Bituca e Da Nossa Criação, parceria com Milton Nascimento. Por falta destes companheiros durante o show, Lô contou com os vocais da sua banda, todos muito afinados, embora substituir Milton Nascimento não seja das tarefas mais fáceis.

Para finalizar, tocou a música que todos aguardavam. Ao ouvir a virada da bateria e a entrada da guitarra, o público se levantou, dançou e cantou Trem Azul, ainda mais uma faixa do disco Clube da Esquina. Mudando um pouco o final da canção, ao terminar com a frase inicial “coisas que a gente se esquece de dizer” repetida algumas vezes, é seguro dizer que Lô Borges não esqueceu absolutamente nada neste show. Uma bela maneira de se inaugurar um CD que tem tudo para ser mais um marco em sua (assim esperamos) ainda longa carreira.

Artista: Lô Borges
Show: Lançamento do CD Horizonte Vertical
Onde e quando: Sesc Pompéia,São Paulo, no dia 17 de novembro de 2011

Brasil - Marcelo Camelo - Toque Dela


Faltando aquele toque
Novo trabalho solo de Marcelo Camelo, Toque Dela reafirma seu talento, mas ainda é insuficiente para consagrá-lo como referência da música brasileira

por Mano Ferreira

“Triste é viver só de solidão”. Foi assim, com este verso arrebatador e em claro diálogo com Triste, música de Tom Jobim imortalizada na voz de João Gilberto, que o cantor e compositor Marcelo Camelo escolheu introduzir o seu novo trabalho, o álbum Toque Dela.

Conversar com os grandes é sempre um sinal de ousadia. Chamar a responsabilidade da tarefa, no entanto, pode acabar soando prepotente e, em certos casos, ingênuo demais: se o mundo é melhor contemplado sobre os ombros de gigantes, também é verdade que a altura do palco exige mais rigor sobre a análise artística.

Além de sua intertextualidade, a qualidade do verso debutante, com minialiterações e gradual desenvolvimento dos fonemas (onde um som convida o outro para, enfim, dormirem juntos), demonstra o inicial sucesso da empreitada de Camelo, assim como o grande potencial do autor. Por outro lado, uma audição mais atenta das dez músicas componentes do disco e uma análise do que elas significam dentro da carreira do cantor sugerem um talento conduzido indevidamente.





Na faixa Acostumar, de rimas pobres e versos preguiçosos como uma música baiana (posso até me acostumar / aaa / e deixar você fugir / iiiii / posso até me acostumar / aaa / da gente se divertir / iii), o compositor faz uma espécie de confissão: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”. A ambiguidade do trecho consegue sintetizar, provavelmente por acaso, a fronteira que Camelo enfrenta: entre o prazer de uma vida despretensiosa, ao antigo “deixa ser como será”, e a acomodação estética, sob falta de norte pelos caminhos do processo criativo.


Marcelo Camelo iniciou sua carreira como vocalista da banda Los Hermanos, lançando cd homônimo em 1999. Ano em que explodiu seu primeiro e pegajoso hit, Ana Júlia, que chegou a ser gravado até pelo ex-Beatle George Harrison. Após uma extensa agenda de shows maracanãnicos e intrigas com a gravadora, o quarteto carioca, que também incluía Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba, decidiu mudar de rumo para se livrar de determinações comerciais imediatistas e deixou de lado sua tendência hardcore. Em 2001, no disco Bloco do Eu Sozinho, investiram suas fichas no sincretismo (já anteriormente presente, mas de forma bastante discreta) entre rock e música brasileira, em especial o samba. Essa tendência foi ainda mais aprofundada nos trabalhos vindouros, Ventura (2003) e 4 (2005). Em 2007, a banda anunciou recesso por tempo indeterminado e seus componentes passaram a se dedicar a outros projetos, sendo Camelo o único a enveredar por carreira solo - estreia que se deu no ano seguinte, com o lançamento de Sou.

Mudanças de rota fazem parte da trajetória de Camelo: sua banda nasceu na cena underground carioca, foi descoberta no festival recifense Abril Pro Rock, transformou-se no sucesso do verão (desses que costumam ser esquecidos antes do sol se pôr), assinou carta de alforria da gravadora, voltou a tocar para pequenos públicos e, enfim, cresceu de modo sustentável, a medida em que sua música amadurecia e seu público se consolidava. Neste processo, as composições de Marcelo chamaram atenção de importantes nomes da MPB, desde Maria Rita, a maior promessa de sua geração, até Ney Matogrosso, que dispensa apresentações, passando por Ivete Sangalo, a super estrela do axé.

O destaque que as composições do hermano atingiram no cenário musical brasileiro ainda não foi retumbante o bastante para firmá-lo no roll dos maiores: falta-lhe o fôlego de um álbum solo consistente, lacuna que deveria ter sido suprida com seus últimos discos, mas não foi.

É notável a transformação na sua maneira de compor. Em sua fase mais prodigiosa, o carioca demonstrava interesse por explorar múltiplos sentidos através de recursos estilísticos como jogos de palavras e figuras de linguagem. Somando-se a isso, arranjos e construções harmônicas que, longe de aprisionadoras, bebiam na fonte da tradição musical brasileira, aproveitando especialmente a riqueza melódica do conjunto de metais. Nos últimos tempos, Camelo tentou se afastar de métodos convencionais e adentrou por experimentalismos que valorizam a espontaneidade. “Pra gente se perder, amor, nesse doce tanto faz”, diz uma parte de Pretinha.




Pessoalmente (não podemos medir) deve ser ótimo o resultado desse estado de espírito. Musicalmente (nós podemos ouvir) certos experimentos trouxeram texturas diferenciadas – ora na linha percussiva, ora em notas dissonantes –, mas que não acrescentaram valor artístico. Restou a sensação de que um pouco menos de “tanto faz” renderia aquele toque que faz falta.

Artista: Marcelo Camelo
Disco: Toque Dela
Gravadora: Universal
Preço: R$ 25

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brasil - Pouca Vogal - Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre



Muita consoante
Gessinger e Leindecker, líderes das bandas gaúchas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem, apostam no Pouca Vogal para sair da zona de conforto e se aventurar em novos horizontes

Por Anna Tiago


A pronúncia de uma vogal é mais livre, o ar escapa mais facilmente pela boca. Já a consoante requer um pouco mais de estreitamento, é mais fechada e, talvez, necessite de mais cuidado para pronunciá-la corretamente. Era isso o que Humberto Gessinger e Duca Leindecker estavam à procura: menos euforia, mais introspecção. Pouca vogal e mais intimismo.

Dois gaúchos. Duas bandas de rock de sucesso. Dois sobrenomes incomuns, com muitas consoantes. Mas a maior coincidência entre eles foi a estagnação, por tempo indeterminado, de antigas semeaduras e o desejo de plantar sementes capazes de gerar frutos inusitados. E essa nova plantação teve início em setembro de 2008, ano em que as bandas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem encerraram suas turnês de Novos Horizontes e 7, respectivamente, e seus líderes resolveram se unir em prol de um novo projeto. 

Antes do disco Pouca Vogal, a dupla já tinha se “esbarrado”. Em 2004, Gessinger tocou no acústico da Cidadão Quem e, após três anos, eles começaram a compor juntos. Em 2007, Leindecker foi convidado para tocar algumas canções com o engenheiro havaiano e, desde então, pensavam em realizar algum trabalho juntos. Daí surgiu o Pouca Vogal.

Mas se engana quem ainda o pensa como projeto. O que começou como uma ideia de se desapegar das antigas bandas e brincar com uma parceria diferente foi se consolidando nesses três anos de formação. Hoje, as vogais antes do nome da nova empreitada mudaram: “o” (projeto) Pouca Vogal agora é “a” (banda) Pouca Vogal. E, segundo seus (dois!) integrantes, “a menor banda do rock gaúcho”. Impossível achar que o “menor” seja relativo à qualidade, quando se sabe que, à frente dela, estão os líderes de duas das maiores bandas de rock do Sul do Brasil.

A princípio, as oito músicas do álbum foram gravadas de forma independente e lançadas gratuitamente na internet. Por meio do site www.poucavogal.com.br, os interessados nas composições inéditas da nova parceria gaúcha poderiam obtê-las gratuitamente. A aprovação veio e, após nove meses, Gessinger e Leindecker gravaram o CD, DVD e Blu-ray Pouca Vogal ao Vivo em Porto Alegre pela Som Livre.

Ao todo, são 20 faixas. Dentre elas, clássicos das bandas originais do duo. Somos quem podemos ser, Até o fim e Refrão de Bolero são algumas das canções dos Engenheiros do Hawaii que marcam forte presença no álbum. A força do silêncio, Dia Especial e Pinhal dão uma pitada de Cidadão Quem na mistura. Boa sacada para atrair a atenção para o disco, apesar de a qualidade e inovação de Pouca Vogal não necessitar de tal artifício de “sedução”.

Entre as músicas inéditas, destaque para Além da Máscara, composição de Gessinger que trata a questão da análise crítica em relação ao mundo, exaltando um viés mais intimista, Tententender e Breve, compostas pela dupla e podendo ser consideradas o ápice da suavidade do álbum. Já a faixa Pouca Vogal representa bem a banda: pouca vogal / clássico grenal / swing esquisito / sem favorito. Era exatamente essa “esquisitice”, a fuga da zona de conforto, que o gremista Gessinger e o colorado Leindecker pretendiam.

Desde o lançamento do CD, a Pouca Vogal não para e segue fazendo shows por todo o país com seu formato simples de acústico: um banquinho e um violão. Ou melhor: dois banquinhos, um violão e uma viola caipira. E um piano, um teclado, uma guitarra, uma percussão e um pandeiro. Muitos instrumentos, poucas mãos. Mas quando o talento é grande, não importa se as coisas são de mais ou de menos.  

E, na falta de mãos, os pés. Aí é que está o grande diferencial da parceria. Tão importante quanto às canções que tocam, é a maneira como eles as executam. Cada um deles toca vários instrumentos: Gessinger é responsável pelo som do violão, da viola caipira, das harmônicas, do piano e da MIDI Pedalboard, um teclado tocado com os pés; Leindecker domina a guitarra, o violão e, com os pés, a percussão, o bombo leguero e o pandeiro. É admirável a desenvoltura dos gaúchos ao tocar diversos instrumentos simultaneamente, transcendendo o formato tradicional dos acústicos.

Depois do solo, o duo é o mínimo, mas pode rolar o máximo de diálogo musical. Gessinger acertou em cheio ao proferir essas palavras. O que se vê em Pouca Vogal é o dinamismo entre duas pessoas que estão dialogando o tempo todo. Uma fusão das particularidades, das consoantes de cada um. Os gaúchos vêm para provar que menos, em muitos casos, pode significar mais.

Artistas: Pouca Vogal 
Disco: Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre
Gravadora: Som Livre

Preço: R$ 19,90

Brasil - De Novo, Não! - Felipe Dylon - Felipe Dylon


Na onda errad
Com cara de paixonite adolescente de verão, Felipe Dylon (2003) foi um tsunami de vendas, mas não trouxe uma marolinha sequer de contribuição para a música brasileira

Por João Vitor Cavalcanti

Na música brasileira, as praias tradicionalmente serviram de cenário para exaltar a beleza das mulheres do País, seja no Sudeste - com Tom Jobim e sua “Garota de Ipanema” -, seja no Nordeste - com “La Belle de Jour”, a moça bonita da Praia de Boa Viagem, de Alceu Valença. Em 2003, Felipe Dylon também resolveu recorrer ao litoral brasileiro como ambiente para suas canções e “nunca antes na história deste país” (para falar de clichê) tanta gente quis nadar, nadar e morrer na praia.

Aos 15 anos de idade, o jovem surfista carioca assinou seu primeiro contrato com a EMI Music, apesar de estar envolvido com música desde os dez, quando formou uma banda com os amigos de escola de nome (acreditem!) “Nerds”. Como resultado, seu primeiro CD de gênero pop, Felipe Dylon, estava à venda poucos meses depois, enquanto suas músicas-chiclete compostas de voz, violão e “poesia” faziam sucesso nas rádios do País e orelhas de muitos adolescentes da época, para preocupação de alguns pais. 

“Deixa Disso” e “Musa do Verão”, cujos versos provavelmente não precisam ser escritos para causar lembrança entre muitos, aparecem respectivamente no começo e fim do álbum e foram responsáveis por vender 120 mil cópias, trazendo para Dylon o certificado de Disco de Ouro. Para muitos, essas duas faixas são o resumo do primeiro CD do jovem artista. Aqui vai um recado aos que pensam assim: caso estejam precisando de um presente caprichado de inimigo secreto para o Natal, não duvidem, Felipe tem muito mais a lhes oferecer.

É verdade, o jovem talento foi injustiçado! Se há alguns meses a também artista teen Rebecca Black fez sucesso cantando sobre os dias da semana em “Friday”, Dylon já cantava sobre o tema há oito anos na segunda faixa do seu CD, “Pura Pressão”: Quarta-feira passou assim / Quinta, coitado de mim! / mas Sexta-feira chegou pra nós / tudo pode acontecer. Felipe Dylon também é Vanguarda.

Outro ponto alto do disco é a participação de Heloísa Périssé na faixa “D+”. Na época, a humorista tinha um quadro no programa semanal Fantástico, da Rede Globo, no qual interpretava uma adolescente de apelido Tati. A atriz foi convidada a participar do álbum e, como boa humorista, não pôde perder a piada. Ao lado de Heloísa interpretando uma personagem estereotipada na canção, Felipe era naturalmente tão caricato quanto ela.



Entretanto, em meio a músicas que se confundem tanto pela temática quanto pela sonoridade como “Só Penso em Você”, “Hipnotizado” e “Vem ficar comigo” o jovem cantor resolveu, além de falar da beleza tropical das praias e mulheres do País, homenagear a própria música brasileira com versões de bandas consagradas. Felipe Dylon, porém, é tão fiel ao seu estilo que o ouvinte só conseguirá distinguir “Me liga”, de Paralamas do Sucesso se conseguir entender os conhecidos versos ao serem embalados pelos maneirismos vocais do então adolescente.

Felipe Dylon conseguiu manter sua onda por mais um ano, com o lançamento do CD seguinte Amor de Verão, que vendeu 175 mil cópias e lhe rendeu um Disco de Platina, mas em 2006 fracassou ao lançar Em Outra Direção com apenas 20 mil cópias. Talvez tenha sido consequência de um sucesso tão precoce, mas uma coisa é certa: Felipe continua sendo um excelente surfista para os que venham a escutá-lo até hoje.

Artista: Felipe Dylon
Disco: Felipe Dylon
Gravadora: EMI 
Preço: R$ 9,49

Gringo - Michael Bublé - Christmas



Merry Christmas, Mr. Bublé
Álbum natalino do canadense é um verdadeiro presente aos ouvidos.

por Diego Robeh

A história se repete em todos os finais de ano. Astros da música aproveitam o clima de “boas festas” para lançar álbuns com canções de natal. A lista é extensa: nomes como Celine Dion, Mariah Carey, Christina Aguilera, Frank Sinatra, Aretha Franklin, Beach Boys, Josh Groban, Phil Spector, Luis Miguel, Justin Bieber e até a brasileiríssima Simone já entoaram clássicos de ode ao bom velhinho. Os nomes citados são apenas alguns. Muitos outros artistas já se renderam à festa do Papai Noel e embalaram os Natais nos mais diferentes gêneros musicais. Tem para todos os gostos e estilos. Álbuns desse gênero costumam embalar as ceias ao redor do planeta e rendem grandes dividendos às gravadoras e artistas, e (por que não?) uma alegria genuína para quem ouve as velhas e tradicionais canções. O cantor e compositor canadense Michael Bublé decidiu deixar sua contribuição aos discos desse universo musical – e o fez com muita competência.

Nascido em Vancouver, no seio de uma família de pescadores, Michael Bublé sempre esteve cercado de música. Cresceu ouvindo a coleção de jazz do avô, além de interpretes como Frank Sinatra e Etta James. Suas influências musicais estão estampadas em seu disco natalino, e é o que faz o álbum soar particular, mesmo que o trabalho seja, praticamente, um disco de covers. “Christmas” foi lançado mundialmente no dia 25 de outubro e estreou no top cinco das principais paradas do planeta.

Produzido por David Foster, Bob Rock e Humberto Gatica e gravado no último verão em Los Angeles, “Christmas” é moderno, inteligente e sereno. O álbum se inicia com It’s beginning to look a lot like Christmas, clássico popularizado por Bing Crosby. A versão de Bublé é melodiosa e com um toque de modernidade. O álbum não poderia ter melhor canção de início. À exceção de duas canções originais compostas pelo próprio Bublé e por seu amigo pianista Alan Chang (são elas a balada pop Cold December Night e a “latina” Mis Deseos), todo o álbum é um reinventar de canções que povoam o Natal há várias gerações. Esse é, talvez, o maior mérito de Michael Bublé: reinventar títulos e fazê-los soarem com um frescor próprio do novo. Em nenhum momento do álbum tem-se a sensação de enfado. Ao contrário: os elaborados arranjos e a afinadíssima voz de Bublé conduzem o ouvinte a uma experiência delicada e de curiosidade que se assemelha a uma criança à espera do momento de abrir seu presente de Natal.

As músicas de tom mais religioso não faltam nesta ode à festividade natalina. Em Silent Night, Bublé é acompanhado por um coro de crianças e, mais uma vez, cumpre o que se propõe. A canção é harmoniosa e remete àquelas tão tradicionais ao espírito da época natalícia. Em Ave Maria, Bublé até canta em latim. Volta a não se afastar muito da música em si, oferecendo-lhe, no entanto, uma melodia peculiar, que a torna verdadeiramente agradável.

Os pontos altos do disco são as participações especiais. Ao lado da compatriota Shania Twain, Michael reinventa outro clássico de Crosby: a versão de White Christmas. A química entre os dois é impressionante e a releitura é tão boa quanto – ou melhor que – a original. Outro destaque é a parceria com a mexicana Thalía. Diva com mais de trinta milhões de álbuns vendidos ao redor do mundo e uma das maiores referências da cultura latina na atualidade, Thalía traz calor ao trabalho do canadense. Cantando em seu idioma materno, a multifacetada artista saúda a todos com um desejo de felicidade e prosperidade tão genuíno, que é como se a parceria dela e de Bublé fosse um encontro de velhos amigos. Por fim, a versão de Jingle Bells é a perfeita síntese do ótimo trabalho de Bublé e seus produtores em “Christmas”. A conhecidíssima canção soa completamente nova e cativante, num dueto com as deliciosas Puppini Sisters. Os vocais burlescos do trio criam um clima vintage na canção, que casa perfeitamente com a excelente voz de Bublé. O tema é absolutamente viciante e agrada à primeira audição.

“Christmas” é um presente antecipado de Michael Bublé para seus admiradores. São pouco mais de cinquenta e três minutos - divididos em dezesseis faixas -, de um trabalho que, sem dúvida, fará parte deste e dos próximos Natais de milhões de pessoas ao redor do mundo. Vale destacar ainda os seis segundos em que Michael Bublé deseja um ‘Feliz Natal’ aos ouvintes do álbum. É o que todos desejamos também para o próprio Bublé depois de ouvir o seu ótimo trabalho.

Para músicas, vídeos e fotos de Michael Bublé, visite a sua página oficial:  www.michaelbuble.com

Artista: Michael Bublé
Disco: Christmas
Gravadora: Warner Music
Preço: R$ 29,90

Gringo - Artic Monkeys - Suck it and See



Mais uma chance para os Arctic Monkeys
Em 2011 o quarteto inglês lança Suck It and See, o quarto álbum de estúdio do grupo, e reafirma sua posição entre uma das bandas mais promissoras do cenário musical atual.

por Camila Estephania

Desde o lançamento do primeiro álbum dos Arctic Monkeys, passaram-se cinco anos. Quando surgiram no mercado, ainda tinham os rostos tomados pelas espinhas da puberdade, porém, chegaram mostrando que sabiam fazer rock como gente grande. Esse período, embora pareça curto, foi o suficiente para o grupo inglês se consolidar em um espaço importante dentro do cenário musical atual. Em meia década, os rapazes criaram quatro discos de qualidade, sem contar com os projetos paralelos do vocalista da banda, Alex Turner. O resultado dessa conta nos leva à conclusão que o grupo vive uma boa fase criativa, com disposição difícil de encontrar em muitos artistas atuais.

O último lançamento da lista dos ‘macacos do ártico’ é o Suck It and See. Este, que é o quarto álbum de estúdio do quarteto inglês, é despretensioso e brilhante ao mesmo tempo. O disco chega para comprovar que os meninos, agora já crescidos, não estão preocupados em atender os padrões do mercado, como também não precisam disso para garantir seu espaço nele. Em um momento da música em que os featurings (parcerias) são quase obrigatórios para alguns artistas conquistarem mais destaque, o trabalho mais recente dos Arctic Monkeys chega com a fórmula de sempre: quatro caras dominando duas guitarras, um baixo e uma bateria. Nada mais.

Porém, seria engano pensar que o som não mudou. Da primeira faixa She’s Thunderstorms até a última That’s Where You’re Wrong, percebe-se que o arranjo instrumental da banda está cada vez mais aprimorado, além do crescimento de Alex Turner enquanto letrista e cantor. Consagrado pelas composições que contam uma história e que seguem um fio condutor bastante coerente, desde o álbum anterior, Hambug, Alex vem trabalhando com letras mais lúdicas. Em Suck It and See, um bom exemplo que segue essa linha é a divertida Brick By Brick, onde não há um foco narrativo, sendo mais interessante o jogo entre as palavras e imagens sugeridas pelos versos.

Hambug, o terceiro trabalho do grupo, contou com Josh Homme (líder dos Queens of The Stone Age) como produtor e mostrou um Arctic Monkeys de sonoridade mais pesada devido às influências do rock psicodélico, de Black Sabbath e dos próprios Queens Of The Stone Age. Suck It and See traz mais essa herança do seu antecessor. Isso fica claro já no seu primeiro single, Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair, que é uma faixa obscura e marcada por riffs pesados.

O álbum também é composto de canções mais suaves. A partir da oitava música, as guitarras se acalmam e as letras voltam a narrar histórias. Dentro desse bloco, temos uma sensível Love is a Laserquest, em que Alex conversa com uma interlocutora (o amor perdido), como já é tradicional em suas composições. Porém, a grande balada para amolecer corações é, sem dúvida, a bela Piledriver Waltz. Essa última faixa foi gravada, primeiramente, só por Turner para a trilha sonora do filme Submarine, sendo depois incorporada pelo restante da banda para o novo disco.

Suck It and See, a faixa que intitula o álbum, fala de uma pessoa que quer uma chance pra estar com o alguém desejado. Em entrevista recente a uma rádio inglesa, o vocalista da banda explicou que a expressão “Suck It and See” é bastante usada na Inglaterra com o sentido de “dê uma chance”, porém, ao pé da letra e em tradução livre, significa “chupe e veja”. A capa do disco, minimalista e tão despretensiosa quanto às canções que guarda, é composta apenas de um fundo bege com o título. Devido à confusão de sentidos da expressão, os supermercados norte-americanos censuraram com fitas adesivas a capa do compacto por considerá-la rude. Um desperdício. O título provocativo do disco é um convite inteligente para o consumidor “pagar pra ver” o que há por trás daquele fundo bege. Dê uma chance e verá que vale a pena.   

Artista: Arctic Monkeys
Disco: Suck It and See
Gravadora: EMI Music
Preço: R$ 29,90

Gringo - Adele - 21


Clube do coração partido
 “21”, segundo disco da britânica Adele, já é o disco mais vendido do ano. Nele, a cantora transforma sua dor em arte e, assim, promove uma catarse coletiva.

por Márcio Bastos

Quanta diferença faz dois anos. Que o diga a cantora britânica Adele. Ela estava saindo da adolescência quando gravou seu primeiro disco, intitulado “19”, sua idade na época. Aclamado pela crítica e com uma recepção moderada do público, o trabalho tinha como fio-condutor o amor, e já mostrava sua voz poderosa e maturidade incomum para a sua faixa etária. Em janeiro de 2011, ela lançou seu segundo CD, “21”. Delicado e poderoso, o disco apresenta a Adele adulta, magoada e no auge da sua potência vocal.

No mundo pop, a ideia de indústria de entretenimento é mais facilmente perceptível do que em qualquer outro estilo musical. Tome-se como exemplos Madonna e Michael Jackson, ou até, mais recentemente, Lady Gaga. O lançamento de seus discos é planejado com os mínimos detalhes, das superproduções videoclipíticas às apresentações quase teatrais em grandes eventos de música. Além da qualidade das canções, a eficiência do espetáculo e da imagem é essencial para se definir o sucesso do produto final.

No entanto, há alguns fenômenos culturais que não podem ser previstos. É o caso de “21”, de Adele. Ainda que seu primeiro disco tenha sido aclamado pela crítica – ganhando inclusive o Grammy de Revelação do Ano –, e as vendas tenham sido boas para uma estreante, a cantora não criou uma audiência global, e ficou mais restrita ao mercado europeu. Mas, assim como já aconteceu com outros artistas, incluindo sua conterrânea Amy Winehouse, foi a dor do fim de um relacionamento que forneceu a ela material para produzir sua obra-prima (até aqui), e conectar-se de forma definitiva com o público.

Se “19” mostrou uma Adele cantando sobre o amor romântico, em “21” o tema central são as feridas abertas provocadas pelo fim do romance. “Rolling In The Deep”, canção de abertura do álbum e primeiro single do trabalho, é um bom exemplo do que se encontrará pelas próximas doze faixas. Com uma voz rasgada, ela declara: “as cicatrizes do seu amor me lembram de nós/ elas me fazem pensar que nós quase tivemos tudo”. Assim como “Rehab”, para Winehouse, “Rolling” serviu como o rastro de pólvora para que todos chegassem ao cerne da dor da cantora.

Ao contrário de sua conterrânea, no entanto, Adele não faz o estilo “coração selvagem”. Sua poética é mais delicada, menos explícita, mas nem por isso, menos eficiente ou cortante. “Someone Like You”, uma delicada balada puxada pelo piano, se tornou um clássico instantâneo. Ao por a voz da cantora em primeiro plano, fica explícita sua habilidade vocal e precisão enquanto intérprete. No mesmo estilo, “Turning Tables” revela a maestria com a qual o álbum foi concebido. Isso porque, convenha-se, a boa e velha fossa pode ser um excelente material criativo, mas pode também tornar o trabalho monotemático e enfadonho. Não é o caso de “21”.

Sim, o fim do seu namoro é a sombra que cobre todo o disco. O sofrimento, a amargura e a solidão estão presentes em todas as faixas. Mas, a cantora e seus produtores conseguem criar uma obra coesa, com variações melódicas e sonoras. “Rumor Has It” flerta com o country, com batidas marcantes de bateria. Já em “Set Fire To The Rain” ela faz a clássica balada própria para cantoras de grande poder vocal, mas adiciona personalidade à interpretação e faz da metáfora tema da música, uma catarse poderosa.

Catarse. É exatamente isso que cantoras com Adele, Winehouse, Nina Simone, Aretha Franklin e outras grandes intérpretes oferecem ao público. Suas dores, tão particulares e, ao mesmo tempo, universais, permitem, através do grito, que expurguemos nossos demônios mais íntimos, que achemos a tradução perfeita para aquele sentimento que não conseguíamos externar.

E a dor de Adele ecoou em muita gente. Tanto que seu álbum já é o mais rentável do ano, com 12 milhões de cópias vendidas, superando a máquina publicitária de grandes artistas pop, como Lady GaGa e Rihanna. Isso talvez prejudique a (merecida) entrada da cantora na lista dos melhores do ano, porque sabe-se a popularização de uma obra, mesmo as de qualidade, faz com que muitos torçam o nariz. Se isso acontecer, será uma pena, porque “21”, se não é o álbum definitivo da cantora (afinal, é apenas seu segundo trabalho), é o testemunho de um momento marcante, tanto para a ela como para o público.

Artista: Adele
Disco: 21
Gravadora: Sony Music
Preço: R$ 24,90

Gringo - De Novo, Não! - Linkin Park - A Thousand Suns



O buraco negro
Linkin Park foge das guitarras distorcidas e dos gritos, criando um álbum conceitual irritante e sem graça

por Amanda Arruda

Identidade. Não é fácil de achar, mas é ridiculamente simples de perder. Que o diga a banda californiana Linkin Park. A Thousand Suns, lançado em julho de 2010, foi o que alguns críticos chamam de uma "mudança alastrada, contraditória e ambiciosa" no estilo de fazer música da banda. Bonitas palavras para dizer que este álbum tem pouco ou nada a ver com a banda de rap metal que gerou singles como Points of Authority ou Somewhere I Belong.

Numa sacada experimental, Mike Shinoda e Chester Bennigton retratam, nesse CD, os sobreviventes de uma bomba atômica. O álbum tem um cunho político leve – como não poderia deixar de ser, visto o assunto no qual é baseado – e usa discursos de Mario Savio em “Wretches and Kings”, Martin Luther King Jr. em “Wisdom, Justice, and Love” e uma entrevista de J. Robert Oppenheimer em “The Radiance”. A ideia, de uma forma geral, não é tão ruim. Claro que não deixa de parecer bobo retratar uma tragédia que nem aconteceu, quando existem tantas outras acontecendo ao redor do mundo. Mas, de forma geral, talvez servisse, se fosse bem executada.

Mas isso não aconteceu. Apesar de ser, de forma geral, um trabalho mais “de ponta” que os anteriores – segundo o próprio Mike Shinoda –, A Thousand Suns é um dos álbuns mais irritantes que alguém pode se dar ao desprazer de escutar. Coproduzido por Rick Rubin e Mike Shinoda, o trabalho sofre de falta de guitarras e sobra de arranjos eletrônicos, soando, em alguns momentos, quase como um Kraftwerk ruim e perdido.

O álbum começa com a introdução The Requiem – que consiste em silêncio, uma voz robótica feminina e sons eletrônicos irritantes –, seguida pela ponte The Radiance, na qual uma voz que parece a de Mike Shinoda (não dá pra ter certeza, por causa dos efeitos) recita uma fala de J. Robert Oppenheimer. Chato, mas você pensa que pode melhorar. Burning in the Skies é a próxima e daí você começa a pensar que colocou o CD errado para tocar e isso não pode ser Linkin Park. Onde estão os gritos de Chester Bennigton? Ou os refrões marcantes? Onde está toda a energia? Onde está, afinal, a banda?

Esqueça. O Linkin Park de Hybryd Theory não está mais ali. Os raps, que aparecem em faixas como When They Come For Me, pecam por falta daquela vitalidade que pode ser observada nos álbuns anteriores. E o que não se tem em gritos, guitarras e outras marcas que assinavam pela banda, sobra em bridges sem pé nem cabeça. A Thousand Suns seguiu o caminho que Minutes to Midnight começou: o do experimentalismo confuso.

Nesse álbum não há uma música, uma sequer, que, ao mesmo tempo, se destaque como boa e responda à proposta atual. Até The Catalyst, escolhida como primeiro single do álbum, está fadada à falta de ânimo da qual todo o CD sofre. The Messenger, uma faixa totalmente acústica na qual Chester Bennigton canta o amor, até que não é das piores – mas não tem nada a ver com a proposta do álbum ou mesmo com Linkin Park no geral.

Na tentativa de mostrar que “cresceu”, o Linkin Park abriu mão do que sabia fazer melhor: chamar todo mundo para cantar e gritar junto, com energia e empolgação contagiantes. A Thousand Suns não tem nada da força ou da luminosidade que você imaginaria de um álbum intitulado – na tradução literal – “mil sóis”. Muito pelo contrário, o álbum deveria ter o nome de “buraco negro”, que é o que fica no lugar de uma estrela que morre.

Artista: Linkin Park
Disco: A Thousand Suns
Gravadora: Warner Music
Preço: R$ 24,90

Clássicos - Queen - A Night at the Opera


A Rainha chega ao topo
Com grandes sucessos como Love of My Life e Bohemian Rhapsody, "A Night at the Opera" (1975), o quarto álbum do Queen, mostra o talento dos seus quatro membros e consagra a banda inglesa no cenário da música

Por Denny Costa

Em 1975, a banda Queen lançou o seu quarto álbum “A Night at the Opera”, sendo, na época em que foi lançado, um dos discos mais caros já gravados. Com ele atingiu marcas impressionantes, foi o primeiro da banda a conseguir um disco de platina, o primeiro também a vender mais de um milhão de cópias e a atingir o topo das paradas do Reino Unido e EUA. Foi o álbum que alavancou a banda para assumir dimensões cada vez maiores. De acordo com o livro Guinness dos recordes, ultrapassou os Beatles e o Elvis Presley e se tornou o grupo mais bem-sucedido na história da parada de sucessos britânica.

“A Night at the Opera” é uma das obras mais refinadas da história do rock. Ajudou a definir um estilo conhecido como rock arte, com produções muito bem feitas. O processo de gravação contou com o criativo Mike Stone que forçou a tecnologia da época além dos limites para conseguir os efeitos nos vocais e nas músicas, todos “naturais”, não-digitais. A música ‘Lazing On A Sunday Afternoon’, é um exemplo dessa criatividade: foi gravada com o auxílio de uma lata de metal para fazer com que a voz de Freddie Mercury soasse como se estivesse sendo cantada em um megafone, com o microfone capitando o som que saia de dentro da lata. Outra curiosidade do processo de gravação é a de que cada linha instrumental foi gravada em um estúdio diferente, as guitarras em um, bateria em outro, e assim sucessivamente, para serem melhor trabalhadas – o que mostra o perfeccionismo do grupo.

O disco tem influências dos Beatles, que costumavam produzir álbuns bem ecléticos (o próprio Roger Taylor, baterista da banda, cita Rubber Soul, Revolver e Abbey Road como exemplos que os inspiraram). Até mesmo como os próprios Beatles, o Queen é composto por quatro grandes músicos diferentes, cada um com seu estilo de composição, mas que mantiveram uma unidade maior no disco, a identidade da banda. As comparações entre os dois grupos ingleses não param por aí. “A Night at the Opera” é tido, pelos fãs, como o “White Album” (dos Beatles, 1968) do Queen, devido a relevância de ambos os discos para as carreiras das duas bandas. O resultado de tanto talento reunido é um disco com faixas variadas musicalmente mantidas pelas camadas e mais camadas de harmonias vocais. As vozes de Brian May, Roger Taylor e John Deacon juntas, compondo as vozes de background muito presente nas músicas, conferem ao Queen uma identidade muito forte, fazendo com que suas composições sejam facilmente reconhecidas.

Muitas camadas de vozes e instrumentos conferindo grandes proporções ao disco não é nenhuma novidade. Isso já aparecia em trabalhos anteriores, como Killer Queen (do terceiro disco do Queen, “Sheer Heart Attack”, de 1974). No entanto, em “A Night at the Opera”, não apenas Freddie Mercury, o vocalista da banda, reafirma-se como grande músico, mas também a capacidade dos outros membros do Queen é comprovada: ‘I’m in Love With My Car’ e ‘You’re My Best Friend’ são interpretadas, respectivamente, pelo baterista Roger Taylor e pelo baixista John Deacon . Já ‘Good Company’ e ‘39″’, pelo guitarrista Brian May.

A música de abertura da obra, ‘Death on Two Legs (Dedicated to...)’, transparece propositalmente toda a raiva de Freddie Mercury com o empresário deles da época (Norman Sheffiled). Pode-se dizer que foi dedicada a ele: tinha a reputação de ter tratado mal a banda e abusado do seu papel de empresário entre 1972-1975. O riff da música, inicialmente feito por Mercury no piano, casou muito bem nas mãos de Brian May com sua guitarra. 

Já a quinta faixa, “’39”, escrita e interpretada por Brian May, é um folk de ficção científica. Fala sobre um astronauta que viajou em uma espaçonave e que, pelas leis da física, tinha sua percepção de tempo totalmente diferente das pessoas na Terra. Ele então volta, depois de o que acha ter sido um ano, quando, na verdade, se passaram 100 anos. E tudo está mudado.

‘Seaside Rendezvous’, a sétima música, mostra a auto-ironia da banda ao não se levar tão a sério. Ao trazer efeitos sonoros, como assobios e sapateado, a música que já tem um ritmo animado parece ainda mais com um “musical da Broadway”. Assim como ‘Seaside Rendezvous’, ‘The Prophet’s Song’ mostra o experimentalismo da banda, mas de maneira mais acentuada. Em uma parte da música, acontece uma espécie de “remix a capella”, uma repetição de frases sem nenhum instrumento ao fundo, conferindo à canção quase que um ritmo eletrônico formado só com varias camadas de vozes se sucedendo.

O álbum ainda conta com dois dos maiores sucessos da banda: ‘Love of My Life’ e ‘Bohemian Rhapsody’. ‘Love of My Life’ foi escrita por Mercury para sua namorada. Apenas com o piano, harpa, uma guitarra e as vozes de background, a música continua até hoje sendo icônica da banda.

No entanto, se tem alguma canção que seja mais conhecida e simbolize mais o Queen do que ‘Love of My Life’, ela é ‘Bohemian Rhapsody’. Um marco na história da música, outra idealização de Mercury. Os outros membros gravaram seus instrumentos isoladamente sem saber como a faixa final ficaria. Com letra marcante, experimentalismo presente tanto nos arranjos vocais quanto na idealização da melodia, uma superprodução, e com diversas camadas de vozes presentes quase o tempo inteiro na música, ela reflete o espírito que “A Night at the Opera" e o Queen têm.

E, como uma espécie de bônus, o disco termina com o hino do Reino Unido, uma saudação à sua rainha, a música ‘God Save the Queen’, tocada pelo Queen em uma versão apenas instrumental.

Artista: The Queen
Álbum: A Night at the Opera (1975)
Gravadora: EMI
Preço: R$ 34

Clássicos - Tom Jobim & Elis Regina - Elis & Tom



O Tom certo para Elis
A reunião entre o mestre da bossa nova e uma das maiores cantoras que o Brasil já deu aos palcos resultou num encontro que permanece marcado até hoje

Por Camila Almeida

Águas de Março repletas de risos, assobios e respirações não vêm para fechar nenhum verão.  Iluminada, brilhante, distante de chuva ou sombra qualquer, a música de abertura de Elis & Tom inaugura uma parceria que esbanja intimismo e qualidade musical. As composições e o piano de Tom ganharam outra vida na voz da musa da música popular brasileira. A bossa e a melancolia que dão corpo ao disco fizeram com que maestro e cantora ficassem embalados numa parceria consolidada desde sempre e para sempre.

Uma década de Elis Regina na gravadora Philips merecia comemoração, com direito à produção de um álbum memorável. Em 1974, a intérprete teve a oportunidade de escolher o presente que receberia, e quis gravar com o mestre Antonio Carlos Jobim. Compositor da maioria de suas canções, dentre elas clássicos como “Corcovado” e “Chovendo na Roseira”, Tom já fazia parte da carreira de Elis. Além disso, seu nome já integrava outros duetos inesquecíveis: Tom e Vinícius, e Chico, e Newton Mendonça. O encontro Tom e Elis consolidaria a união de dois dos maiores musicistas que o Brasil já pode apresentar.

Não era preciso trazer nada de novo. O ritmo, os acordes, o timbre, os instrumentos, tudo saiu do jeitinho que já se sabia. A proposta não era revolucionar a música popular brasileira. Não se queria anunciar a novidade, o inesperado, o diferente. O encontro Elis & Tom apresenta as canções que se sabia de cor, que emocionaram gerações, numa coletânea enriquecida por uma Elis Regina na sua melhor forma e pelo magistral Tom Jobim, com toda a calmaria e o preciosismo conhecidos.

Quem recebe toda a carga emotiva presente no disco não imagina que o clima das gravações era repleto de tensões. No estúdio da MGM, em Los Angeles, Estados Unidos, o entrosamento entre a dupla foi difícil de alcançar. Tom se mostrou insatisfeito com o fato de não ser o responsável pelos arranjos, que ficaram sob os cuidados de César Camargo Mariano, marido da cantora. O piano elétrico de César, que Elis defendia como o símbolo da modernidade, também fez a erudição de Tom torcer o nariz. Mas, uma vez conformado com os quiprocós da produção, o maestro se rendeu à beleza que o álbum tinha em potencial, e viu seu piano de fora em apenas quatro faixas do disco.

Tom incorpora sua voz à de Elis em três faixas: “Águas de março”, “Soneto de separação” e “Chovendo na Roseira”. Em “Corcovado” e “Inútil Paisagem”, por exemplo, se limita a contracantos. A maioria das músicas é interpretada apenas por Elis, num vocal apaixonado, extremamente afinado como de costume, e com a respiração sobrando ao microfone. O violão suave e a batida leve da percussão acompanham a levada emocionada, à beira do choro, que Elis ofereceu às canções.

Em 2004, o disco foi remixado em seis canais (5.1) para ser lançado no formato de DVD-áudio. Todas as faixas do LP original estão presentes, mas enriquecidos com elementos do estúdio como batidas de pés no chão para marcar o compasso e diálogos entre a dupla. A inédita “Bonita”, cantada pelos dois, também faz parte do álbum renovado.

Em meio aos corações dilacerados, à espuma em que se tornaram as bocas unidas e aos fins de caminho repletos de paus e pedras, estão lançados os corações de músicos que, ainda bem, tiveram a graça de se encontrar em estúdio. Elis Regina e Tom Jobim, numa união perfeita, fizeram um pacto que venceu o tempo, com suas versões eternizadas tais quais sonetos e retratos em branco e preto.

Artista: Tom Jobim e Elis Regina
Disco: Elis & Tom (1974)
Gravadora: Polygram
Preço: R$ 25

Clássicos - Led Zeppelin - Led Zeppelin IV


Os quarenta anos do disco da banda de quatro rapazes ingleses
Não, não é mais uma crítica dos Beatles, mas sim do Led Zeppelin, a banda britânica que reuniu rock pesado, música acústica e J.R.R Tolkien em seu quarto álbum

Por Thiago Wagner


Apontada como uma das bandas precursoras do hard rock, gênero consideravelmente mais pesado do que o rock convencional, o Led Zeppelin surgiu por força dos negócios ainda na Yardbirds, outro conjunto dito como pioneiro do hard rock e que foi comandado pelo guitarrista Jimmy Page em seus dias finais. A verdade é que precisando de integrantes para concluir o restante da turnê da YardBirds, Page foi obrigado a reunir de maneira apressada o vocalista Robert Plant, o baixista John Paul Jones e o baterista John Bonham.

Juntos, os quatro rapazes ingleses não só finalizaram os shows com a banda antiga como também foram responsáveis pela formação que marcaria para sempre a vida deles como também a vida de muitos amantes do rock. Tudo porque, logo depois de finalizada as obrigações com a Yardbirds, Plant, Page, Jones e Bonham entraram em estúdio para gravar um novo disco para uma nova banda, que segundo Keith Moon e John Entwistle, do The Who (outra banda expoente do gênero hard rock) deveria se chamar Led Zeppelin já que cairia como um “balão de chumbo” sobre o público.

Com combinações de blues, rock e influências orientais, a banda chegou ao sucesso logo no seu primeiro álbum, o Led Zeppelin I (1969). Graças a esse resultado positivo imediato, o conjunto emendou uma série de shows afora do país, principalmente na América. Durante a turnê do Led Zeppelin I, o grupo gravou o Led Zeppelin II lançado oficialmente em outubro de 1969 com a canção Whole Lotta Love que teve boa aceitação do público. O sucesso manteve-se e deu ainda mais fôlego para que a banda emplacasse no ano seguinte o Led Zeppelin III (1970). Os três álbuns do conjunto caracterizavam-se pelo som pesado da guitarra de Jimmy Page e da bateria de Bonham misturados com os arranjos acústicos de Jones e a voz inconfundível de Plant. A combinação era perfeita até então.

Contudo, a música, como todas as coisas na vida, também precisa de amadurecimento, que para o Led Zeppelin veio com o seu quarto disco, o Led Zeppelin IV, lançado em de 8 de novembro de 1971. Um disco que entra para o hall dos álbuns acima dos quarenta anos, mas que consegue manter a sua juventude ainda nos dias de hoje graças ao apreço que os fãs têm por ele. Neste álbum, o Led Zeppelin não só mantém a sua característica inicial como traz elementos do misticismo da cultura folk e da literatura em suas letras. Além disso, o grupo traz a presença da cantora Sandy Denny na faixa The Battle of Evermore o que o torna o único gravado em estúdio em que há a presença de um artista de fora da banda.

Black Dog (Cachorro Preto em português) abre o disco com os riffs de Jimmy Page e as batidas de Bonham funcionando como uma espécie de “resposta” para os agudos de Robert Plant durante a música. Nesta faixa o Led Zeppelin mostra como os “idiomas” do vocal e dos instrumentos podem falar a mesma língua em uma espécie de conversa de bar entre os amigos. O curioso desta música é que o título não tem nada a ver com a letra. O tal “cachorro preto” é apenas uma referência ao animal que vagava pelas ruas do estúdio de gravação. Também é nesta faixa que Plant atinge as notas mais altas de sua carreira, demonstrando a boa forma do cantor.

Considerada hino e um dos maiores legados para os amantes do rock, Rock and Roll mantém o ritmo forte deixado por Black Dog, quase que funcionando como uma sequência para a primeira faixa. Nesta música também notamos a presença do piano do convidado Ian Stewart na segunda metade da música entre a guitarra de Page e a bateria pesada de Bonham que finaliza o som com a força de um lutador. Tal obra só poderia ser uma das poucas composições do Led Zeppelin que é assinada pelos quatro elementos do grupo.

Em The Battle of Evermore (A Batalha De Sempre) há a presença de Sandy Denny. Inspirada na saga O Senhor dos Anéis, do escritor britânico J.R.R Tolkien, a faixa funciona como a narração da história de alguma antiga lenda europeia. Para isso, Plant pensou que a voz de Denny seria perfeita para dialogar com a dele. O interessante é que a voz dos dois às vezes se confunde como uma única, tamanha a similaridade do timbre. É a polifonia de “uma” voz.

Stairway to Heaven (Uma escadaria para o céu) é de fato o céu para o Led Zeppelin. Se não houvesse nenhum registro sobre a banda que não fosse as suas músicas, Stairway to Heaven deveria ser tocada com a seguinte frase após o seu término “Isto é Led Zeppelin”. A faixa combina todos os estilos presentes não só no disco como também na carreira da banda. Ela começa lenta, intimista e acústica com os arranjos de Jones e segue nesta batida sem nenhum som de bateria até pouco mais da metade. Em seguida, entra Bonham. O ápice da música acontece com o solo de Jimmy Page, quase 50 segundos que também poderiam sintetizar o que foi o guitarrista. Simplesmente algumas combinações de notas parecem impossíveis principalmente para os que assistem Page em ação (confira no link abaixo). Em sua última parte, a música ganha o teor pesado do Led Zeppelin com os agudos de Plant e as batidas raivosas de Bonham. Contudo, a canção surpreendente se encerra calmamente como quem diz de maneira gentil: “obrigado por ter nos ouvido durante estes oito minutos”.

Com mais uma influência de Tolkien, chegamos a quinta faixa do disco, Misty Montaim Hop (Salto da Montanha Nebulosa), uma música que conta com a presença dos arranjos de Jones para produzir um hard rock no estilo mais leve. Nesta faixa também temos mais uma demonstração da boa forma de Robert Plant que atinge notas tão altas como em Black Dog.

Four Sticks (Quatro Baquetas) pode ser considerada a obra-prima de John Bonham, o baterista que também está em ótima forma durante o disco, se supera para conseguir batidas ainda mais fortes nesta música, tanto que o nome da composição faz justamente referência a ele, que para conseguir os arranjos de bateria desta faixa teve que utilizar quatro baquetas para bater de maneira violenta e alcançar o resultado desejado pela banda. Talvez o fato de exigir tanto de Bonham explique o porquê Four Sticks foi tão pouco tocada nos shows de Led Zeppelin.

Para contrastar um pouco com a faixa anterior, temos a melancólica Going to California (Indo para a Califórnia), o som mais acústico e intimista deste disco. Na música, Page troca sua guitarra elétrica por uma acústica, enquanto Jones toca o seu bandolim. O resultado é uma canção romântica na voz de Plant que simboliza o sentimento dos jovens apaixonados.

A regravação When the Levee Breaks (Quando a Barragem Romper) fecha o álbum Led Zeppelin IV.  Se Page rouba a cena em Stairway to Heaven com o seu solo, Bonham com certeza pode ser apontado como o destaque desta faixa. Os quase um minuto e trinta segundos de introdução demostram o quanto o baterista era competente com as baquetas nas mãos, o que nos faz lamentar a sua morte tão precoce. Bonham era do grupo de bateristas que não precisavam fazer estardalhaços para mostrar competência. Tocar bem e de maneira simples era a identidade não só dele como de toda a banda.




Legado
Por tudo isso exposto, o Led Zeppelin IV é um dos álbuns que tem suas músicas mais lembradas até hoje não só pelos fãs como também por outras bandas que não sentem vergonha alguma de apontar o Led Zeppelin como influência para as gerações posteriores do rock. Por mais que a taxação de um gênero seja um reducionismo para a banda e mesmo que o grupo tenha caminhado para vertentes mais experimentais depois deste álbum, é inegável afirmar que os quatro rapazes britânicos foram pioneiros no gênero hard rock. O quarto disco do Led Zeppelin é para se guardar na prateleira de casa como uma medalha ganha em uma Copa do Mundo ou Olimpíada.

Confira abaixo,a música Rock and Roll tocada pelo Foo Fighters com a presença de Jimmy Page e John Paul Jones:



Artista: Led Zeppelin
Disco: Led Zeppelin IV (1971)
Gravadora: Atlantic Records
Preço: R$ 25