sábado, 3 de dezembro de 2011

Brasil - Wado - Samba 808




O samba encontra o século XXI
No seu sexto trabalho, o alagoano Wado mistura sons eletrônicos com samba e funk e conta com vários convidados para fazer um álbum que pode levá-lo a novos ouvintes

Por Pedro Monteiro

Quando a Roland, fabricante de instrumentos musicais, lançou sua revolucionária bateria TR-808, provavelmente não esperava que o aparelho atingisse status de icônico na música popular. Depois de entrar no título de um álbum de Kanye West, além de ser citada em músicas de Beastie Boys, Beck e OutKast, a bateria inesperadamente entra no nome de Samba 808 (2011), álbum do músico alagoano Wado. Como o nome já diz, aqui, o funk, samba e a MPB típicos de Wado são filtrados por elementos eletrônicos, e o resultado é mais uma reinvenção do artista alagoano.

Wado sempre usou elementos eletrônicos como detalhes em suas composições. Samples e sintetizadores tem feito cada vez mais parte do som do compositor e em Samba 808, os efeitos – e a bateria eletrônica do título – ganham papel principal, dialogando muito bem com as diversas influências de Wado, que vão do funk carioca ao afrobeat.

Na faixa de abertura, “Si Próprio”, por exemplo, ouve-se a voz de Wado e de Zeca Baleiro, que faz participação especial mastigada por um auto-tune digno dos últimos trabalhos de Kanye West, acompanhados por guitarras distorcidas e sintetizadores chiados, mas que não escondem as raízes de samba triste da música.

A participação de Zeca Baleiro não é a única no CD. Assim como o CD é uma mistura de influências, é também uma mistura de participações. Curumim, Chico César, Marcelo Camelo, Fernando Anitelli, Fábio Góes e André Abujamra compõem a respeitável lista de convidados, e deixando Wado sozinho em apenas três faixas, das dez que compõem Samba 808.

Marcelo Camelo e Wado, em “Com a Ponta dos Dedos”, são acompanhados por uma bateria eletrônica e uma guitarra com muito delay, algo completamente distante da fase MPB-introspectiva atual de Camelo. O resultado é uma das faixas mais agradáveis do álbum, uma balada pop com estética ao mesmo tempo MPB e eletrônica.

Na ótima “Beira-Mar”, que fecha o disco, Wado canta com André Abujamra, em uma faixa que lembra muito o Karnak, a antiga banda de Abujamra. O ritmo dançante, o coro e a chamada-resposta são influências fortes da música africana, mas ao mesmo tempo acompanhada de guitarra e sintetizador. Lembraria o Vampire Weekend, se o Karnak já não tivesse explorado muito bem essa mistura há quinze anos.

O baterista, cantor e multiinstrumentista Curumin participa em “Esqueleto”, dando à música o swing e a influência hip-hop tão presentes no seu trabalho solo. A música é um bom exemplo de tudo que faz o disco funcionar tão bem: o diálogo de Wado com os seus convidados, o uso proeminente dos elementos eletrônicos e a mistura de ritmos.

O ponto fraco do álbum, curiosamente, está em uma das faixas que Wado canta sozinho. “Não Para”, uma música chapada que usa o refrão de “Elas estão descontroladas”, clássico da era Furacão 2000 do funk carioca. Ouvir Wado cantar “Não para, não para, não para não/até o chão/elas estão descontroladas” soa como o ponto mais baixo de uma música que exagera nos elementos eletrônicos e soa desconectada do resto do disco.

O ponto baixo do cd, no entanto, não compromete. “Surdos da Escola de Samba”, com participação de Chico César, e “Vai Ver”, são ótimas canções que se encaixam muito bem no repertório de Wado, combinando ótimas letras com belas melodias, sem esquecer o mote eletrônico que move o álbum.

Este já é o sexto álbum de Wado, que ainda não tem grande reconhecimento na grande mídia. Mas, seu método de lançamento – foi disponibilizado gratuitamente no site do artista – e o seu grande número de participações famosas podem levar o talentoso cantor alagoano a novos ouvintes e a conquistar novos espaços. A atenção será bem-vinda e merecida.

Artista: Wado
Disco: Samba 808
Gravadora: Independente
Onde encontrar: http://www.wado.com.br/


Clássicos - Gal Costa - Fa-Tal / Gal a Todo Vapor (1971)


Nada de divino, maravilhoso, os tempos são outros
40 anos após seu lançamento sob a sombra do regime militar, “Fa-tal – Gal a Todo Vapor” continua impressionando as novas gerações com o repertório apurado e interpretações marcantes de Gal Costa

Por Renato Contente

O Píer de Ipanema estava para a juventude carioca alternativa dos anos 70 como a joalheria Tiffanny estava para Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo. Havia, tanto para os jovens citados quanto para a personagem imortalizada no cinema por Audrey Hepburn, a crença de que, nesses lugares, nada de ruim poderia lhes acontecer.

Para Holly, sozinha em uma metrópole como Nova Iorque, a ida a loja funcionava como um escape à solidão. Para os cariocas, no entanto, ir ao píer era sinônimo de encontrar os amigos e usar maconha, como forma de anestesia às barbáries cometidas pela ditadura militar.

O lugar, antes abandonado por causa de um emissário submarino que jogava o esgoto da cidade na praia, virou palco dessa agitação toda depois de uma baiana magra e bronzeada, com seus 20 e poucos anos, passar a freqüentá-lo. Seu nome é Gal. Já considerada musa da música brasileira na época, sua influência foi tanta, que o lugar, antes conhecido por Dunas do Barato (referência a maconha), passou a se chamar Dunas da Gal.

Em 71, para entretenimento dos “desbundes” das Dunas, versão brasileira (e carioca) do movimento hippie, surgiu a idéia de montar um show simples e despretensioso, que dialogasse com os problemas sociais e políticos daquela geração de ovelhas negras. “Gal a Todo Vapor” imediatamente virou febre entre os freqüentadores do píer, que iam várias vezes por semana ao Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, assistir à apresentação da diva baiana.

Transformado em álbum duplo pela Philips no mesmo ano, sob a apropriada alcunha “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, o disco, gravado ao vivo, não demorou a fazer sucesso. Na capa, simples e arrojada, é destacada a boca vermelha de Gal ao microfone e parte de seus cabelos, elementos que, a partir de então, seriam símbolos e ícones da sua carreira. Eram, também, indícios da forte sensualidade presente no espetáculo.

Com rock, tropicália, blues e samba, “Fa-tal” é um registro cru do que se processava de novo no cenário musical brasileiro no início da década de 70, além de compilar revisitações de ícones do passado.

Especialista em Música Popular Brasileira, o historiador Luiz Américo pontua que, “no caso de Gal, ela passeava desde o samba tradicional de Geraldo Pereira, em “Falsa baiana”, até Ismael Silva, interpretando de modo magistral [...] o samba canção “Antonico”. Mas o caldeirão de influências é mais vasto ainda quando percebemos que ela não se deixa levar pelas críticas a alienação da Jovem Guarda e canta “Sua estupidez”, de Roberto e Erasmo Carlos”.

O show é dividido em duas partes, que no disco foram invertidas: na primeira, vemos uma Gal transmutada em uma elétrica band leader, na segunda, o esquema banquinho e violão deixam a apresentação mais intimista.

Seguindo a ordem do disco, que começa pela parte mais elétrica, com rock, guitarras e letras afiadíssimas, a plateia recebe de cara o “canto torto que, feito faca, corta sua carne”, como cantou Belchior em uma de suas canções. Se hoje ouvir essas primeiras músicas, em CD, é uma experiência ofegante, de perder os sentidos, fica difícil imaginar como era isso tudo ao vivo. Para ilustrar a ideia, de uma vez só, o ouvinte se depara com “Dê Um Rolê” (Novos Baianos), “Pérola Negra” (Luiz Melodia), “Mal Secreto” (Macalé), “Como Dois e Dois” (Caetano Veloso, então exilado) e “Hotel das Estrelas” (Macalé).

A voz doce e urgente de Gal não se conteve em meio ao clima de repressão da ditadura, que, em 69, tinha exilado Caetano e Gil, seus padrinhos musicais. Essa primeira parte de “Fa-tal” sinaliza bem o estado de espírito da cantora, que adotou os gritos e a psicodelia para reclamar de tudo que estava acontecendo. Para ela, o exílio dos dois foi como perder o chão, o que acabou servindo para seu amadurecimento pessoal e artístico.

A abertura fica por conta de “Dê Um Rolê”, cujos versos enfáticos declaram que Gal é “amor da cabeça aos pés”. Dizendo que “só tá beijando o rosto de quem dá valor/ pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis”, a canção reflete os valores da juventude hippie da época, que tinha o sentimento em primeiro plano e deixava de lado as preocupações com o dinheiro.

Fica difícil conter-se em “Pérola Negra”, quando a baiana canta, em uma interpretação visceral, a forte poesia de Melodia (“arranje algum sangue, escreva num pano/ [...] rasgue a camisa, enxugue meu pranto”). Logo na seqüência, “Mal Secreto” representa a voz de uma geração forçada a se calar diante da situação política do país, como denuncia o trecho “massacro meu medo/ mascaro minha dor”.

“Como Dois e Dois”, feita por Caetano no exílio, evidenciava que tudo ia mal ou perfeito “como dois e dois são cinco”. O suplício de Gal continua em “Hotel das Estrelas”, quando fala dos “mortos embaixo da escada” e deixa o lirismo ser rasgado sem cerimônia ao cantar “no fundo do peito/ esse fruto apodrecendo/ a cada dentada”.

No momento seguinte, a cantora mostra que, mesmo em tempos difíceis, nem só de melancolia vive a Bahia. Pelo contrário. “Bota As Mãos Na Cadeira”, “Chuva, Suor e Cerveja”, “Luz do Sol” e “Fruta Gogóia” impregnam a plateia, ao vivo ou de casa, de alegria.

A segunda parte do disco, que começa com “Charles Anjo 45”, de Jorge Ben, dá início ao momento intimista da obra, com interpretações (e instrumentos) mais suaves. “Como Dois e Dois” aparece mais uma vez, assim como “Fruta Gogóia”, ambas em versão voz, serenidade e violão. “Coração Vagabundo”, também de Caetano, sinaliza que o coração do baiano, mesmo longe de sua terra, “não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. “Antonico” e “Sua Estupidez” ganham aqui interpretações transcendentais de Gal, apontadas até hoje pela crítica como definitivas em toda a carreira da artista.

A música que fecha o espetáculo é a que também dá nome a ele. “Vapor Barato”, de Macalé e Waly Salomão (produtor do show) é considerado o hino da Geração do Desbunde, revelando uma juventude consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. “Vapor era como o vendedor de maconha era chamado”, explica Macalé, “barato era o barato mesmo”.

Com 26 anos, barriga de fora e pele queimada de sol, Gal era objeto de desejo por parte da plateia, e o frisson que gerava era fatal. Para ampliar a quantidade de sensações e entrar em um estado de catarse permanente, alguns fãs – homens ou mulheres - se masturbavam durante o show, segundo relataram amigos da cantora.

“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi gravado ao vivo, no cru, e é  repleto de defeitos técnicos. Microfonia, ruídos, pequenos acidentes (em “Fruta Gogóia”, por exemplo, Gal tropeça e cai do banco – o violão bate no microfone, ela dá uma risada e solta um “Acontece...” delicioso) e algumas quase desafinadas tão autênticas quanto charmosas. E é assim mesmo, cheio de retoques a se fazer, que “Fa-tal” é, como toda obra prima, irretocável.

Artista: Gal Costa
Disco: Fa-tal – Gal a Todo Vapor (1971)
Gravadora: Philips
Preço: R$ 30



Gringo - Coldplay - Mylo Xyloto



Do muro que brotam pétalas
Com inspiração no graffiti, Coldplay conta uma história de amor feliz em Mylo Xyloto, seu novo disco
Por Mano Ferreira
Um mundo distópico sob um cenário urbano agressivo. Um muro. É neste ambiente que um casal de jovens, ao entrar para gangue chamada “Os Garotos Perdidos”, roubam um carro, se conhecem e podem, a partir daí, desenvolver um amor livre, sincero e profundo –  de brotar pétalas nos tijolos. Parece ser esse o enredo de Mylo Xyloto, o novo álbum da banda britânica Coldplay.
Como devidamente evidenciado na capa do disco, o trabalho recebe uma definidora influência do graffiti inglês, imprimindo essa marca tanto nos temas como nas ambientações que foram escolhidas para os videoclipes, tremendo sucesso de público e crítica – diga-se de passagem.
Lançado no final do último mês de outubro, o disco contém 14 faixas. A abertura é feita com música homônima ao álbum, Mylo Xyloto, uma vinheta instrumental bem curta, que anuncia o clima do que está por vir. Sem grandes pretensões, usando elementos eletrônicos e sintetizadores, prepara o clima para Hurts Like Heaven, que acelera a pulsação e começa a envolver mais ardentemente o ouvinte, com riffs ora de teclado, ora de guitarra, em timbres que se alternam entre graves e agudos.
A terceira faixa é Paradise, super candidata a single, uma balada romântica com belo arranjo, de andamento mais lento, guiado pelos toques de piano. Em seguida, Charlie Brown conta justamente a história dos tais garotos perdidos que roubam um carro (I stole a key, took a car downtown where the lost boys meet) e que a faixa seguinte, Us Agains the World, trata de unir com sutileza e romantismo, levados por um violão cru, tocado como em um lual de amigos, com vocais suaves para expressar a florescente paixão do protagonista.
Uma segunda vinheta instrumental surge. São 48 segundos que realçam a música seguinte, que teve direito até a pré-lançamento e foi eleita para a promoção do álbum nas rádios. Trata-se de Every Teardrop Is A Waterfall, que usa bastantes sintetizadores e bebe vastamente da influência da música eletrônica, com ritmo bem marcado e dançante, além de elementos da música celta.
Major Minus vem na sequência, empunhando um acústico que se funde a distorções e, mais uma vez, sintetizadores. Nesse caso, o violão tem uma batida mais agitada, se relacionando, a certa medida, com bandas como U2 e Red Hot Chili Peppers.
Com jeito de cambalhota desajeitada, Princess of China traz  o esquisito resultado da participação de Rihanna, artista que pertence a um universo pop completamente distinto do rock alternativo britânico. Certamente, o pior momento do disco.
Up in Flames recupera o espírito, trazendo mais uma balada, dessa vez conduzida por uma batida eletrônica junto a um piano calmo e preciso. A Hopeful Transmission, a terceira e última vinheta curta de Mylo Xyloto, é, de fato, uma esperançosa transição para Don’t Let It Break Your Heart, que resume a atmosfera do disco, o amoroso final feliz, com pétalas brotando do muro grafitado.
Artista: Coldplay
Disco: Mylo Xyloto
Gravadora: EMI
Preço: R$ 25

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Pernambuco - Team.Radio - Summertime


Embarque no sonho da Team.Radio!Banda pernambucana combina intimismo e competência numa única estação

por Jadiewerton Tavares

Banda de post-rock pernambucana formada em 2008, a Team.Radio propõe um som diferenciado do que se está acostumado em se tratando de Pernambuco. O grupo composto por Roberto Pardal, Thiago Gadelha, André Maranhão, Arthur Azoubel e Marina Silva produzem músicas cantadas em inglês ambientadas sob sintetizadores, timbres suaves e vozes que se assemelham a sussurros, agregando nítida influência de grupos como Clube da Esquina e My Bloody Valentine em sua verve musical. Após sucessivas mudanças em sua formação, a Team.Radio acaba de lançar seu terceiro EP intitulado Summertime através da parceria com três selos virtuais: RockinPress, Sinewave e Popfuzz Records. As cinco faixas do EP mostram as principais características da banda, com músicas longas, experimentalismo e delicadeza nos arranjos.

A faixa homônima possui o aspecto instrumental como predominante sob a liderança de guitarras milimetricamente dedilhadas e sintetizadores que propiciam um espaço para o encontro com os vocais “arrastados” que marcam presença até o final da canção. Já em “French Doll”, os timbres escolhidos são mais incisivos, assim como a bateria, que têm um papel mais atuante com algumas viradas. É canção com apelo mais pop no EP. Sua melodia faz lembrar grupos como The Cranberries ou The Cardigans. A Team.Radio dá continuidade a sua jornada autoral neste EP demonstrando que também prima por variações sonoras numa mesma canção, como é feito na instrumental “Vegas”. A sincronia entre as duas guitarras, a base que o sintetizador proporciona à estrutura da música e o setor rítmico do grupo com a bateria sob diferentes timbres de prato e efeitos percussivos evidenciam a sensibilidade do grupo em compreender o instante em que se deve acelerar ou diminuir o tom em força do intimismo que a própria música permite.

“Come on” apresenta a continuação sistemática da proposta da banda, mas desprovida de qualquer monotonia e repetição. A letra é cantada de forma melancólica e os vários arranjos já tão citados são carregados e têm a companhia de marcações que reverberam a identidade do grupo em seus quase nove minutos de duração que se encerram lentamente. Os 38 minutos que preenchem o EP se encerram com “Albatross” e seu final distorcido, a canção mais triste neste trabalho do grupo.

De fato a Team.Radio demonstra como seus integrantes primam pelo trabalho minucioso e bem executado dentro do que se propõem a fazer, com atmosfera hipnotizante e que no mínimo aguça a curiosidade de quem não acompanha tanto o gênero. A banda dispõe de músicas compostas de forma muito bem detalhadas e envolventes oferecendo ao ouvinte uma verdadeira viagem sonora com clima intimista que sempre se renova e possui elementos que agregam valor e expressão própria ao som do grupo, como vozes bem sincronizadas e um aspecto sonoro surreal e bem executado que comprovam sua competência e completam sua mensagem em favor da música antes de qualquer coisa. Acordes certeiros que demonstram todas as suas habilidades tanto como instrumentistas quanto executando em conjunto são explícitos. Mais uma ótima surpresa pernambucana.

Artista: Team.Radio
Disco: Summertime
Gravadora: RockinPress/ Sinewave/Popfuzz Records
Onde encontrar: www.rockinpress.com.br, www.sinewave.com.br, www.popfuzz.com.br, teamradio.bandcamp.com/album/summertime

Pernambuco - Quatrofonia – O Verbo e O Som (DVD)


Quatro cantos de um só lugar
DVD Quatrofonia traz artistas recifenses com sonoridades individuais, pensamento coletivo e primor pela palavra

por Eline Santos

Com previsão de lançamento oficial pra dezembro, já está nas lojas uma bela novidade da produção musical pernambucana. Quatrofonia é um projeto coletivo que apresenta quatro pocketshows do grupo Rabecado e dos músicos Joaquim Izidro, Sérgio Cassiano e Tonino Arcoverde, aprovado pelo FUNCULTURA e gravado no SESC Santo Amaro, em fevereiro de 2011.

Numa proposta básica e bem produzida, o Quatrofonia vem para destacar as nuances da música feita em Recife, atualmente. Sob quatro caminhos diferentes, a coletividade desses músicos rege todo o trabalho. Outro ponto a destacar é a referência feita no subtítulo O verbo e o som; o primor pelas letras é um elemento que coexiste e é comprovado com a escolha das canções do DVD.

Intercaladas por mini-entrevistas com cada músico, o Quatrofonia inicia-se com uma mescla de músicas de cada banda. O Rabecado, grupo de forró urbano, tradicional e renovado ao mesmo tempo, abre as portas com “Vão”, mostrando o quão universal esse grupo consegue ser. Em seguida, Tonino Arcoverde, veterano em sons e história, traz “Telhados da Várzea”, que descreve com tamanha sutileza essas imagens sob os arranjos que, até sem querer, deixam um ar épico, grandioso. Joaquim Izidro, cearense radicado em Recife há doze anos, começa com “A morte da árvore”, canção que também abre seu CD recentemente lançado (Tempos Vindouros), de toque forte e letra tocante ao descrever sensivelmente um fato dito corriqueiro, como revela o título da música. Fechando o primeiro ciclo de músicas, Sérgio Cassiano, outrora membro do grupo Mestre Ambrósio, executa as canções de seu único CD solo (Ciência da Festa), como quem confirma a alcunha de “artista”, com dinâmicas e performances requintadas.

Em seguida, blocos de depoimentos aliados às composições de cada grupo são mostrados, reiterando a cada acorde a pluralidade musical pernambucana desprovida de rotulações e histórias já manjadas, que enchiam de “beats” e “pseudo-estuários” nossa produção artística. Quatrofonia vem para carimbar aos ouvidos quatro trabalhos únicos e agregados por um pensamento qualitativo, dos dezoito artistas envolvidos, que influencia diretamente nossa percepção do que é nosso.

Tecnicamente, o DVD cumpre suas ideias. Com gravação de áudio e vídeo comandadas pelo Estúdio Carranca e pelo Ateliê Produções, respectivamente, ganhamos mais um produto refinado, que reitera e apresenta sonoridades, visões e carreiras traçadas pelo verbo e pelo som.

Artistas: Tonino Arcoverde, Sérgio Cassiano, Rabecado e Joaquim Izidro
Obra: Quatrofonia – O Verbo e O Som (DVD)
Gravadora: Independente
Preço: R$ 20

Brasil - Lô Borges (Show)


Entrando no Horizonte Vertical
Show do cantor no Sesc Pompéia, em São Paulo, marca o lançamento de seu novo álbum “Horizonte Vertical”.

Por Julia Magnoni

Acompanhado pelos músicos Henrique Matheus (guitarra e violão), Gerson Barral (teclados), Robinson Santos (bateria) e Renato Valente (baixo elétrico), o tímido cantor entra ao palco. Apresentando-se em carreia solo há quase 40 anos e autor de 14 discos, Lô Borges não é nenhum iniciante. Aos 19 anos, ajudou a fundar, com Milton Nascimento, o grupo musical mineiro Clube da Esquina, autores de dois discos que levam o mesmo nome da banda. Desde então, Lô se apresenta ao público brasileiro.

A rotina de entrada ao palco é a mesma que a de tantos outros cantores: caminha calmamente até o centro, apanha seu violão, dá uma olhada para os músicos e engata a primeira canção – Trem de Doido. A composição, original do primeiro disco Clube da Esquina, é o suficiente para fazer com que o público – quase 800 pessoas – embarque em uma viagem nostálgica. Até os que nem vivos eram na época em que as canções foram lançadas sobem neste trem e cantarolam juntos aos versos da “noite azul, pedra e chão”.

Afiados nas notas, os músicos da banda parecem tocar em conjunto sem grande esforço. Pudera! Há 15 anos participam dos shows de Lô Borges. O backing vocals, composto por Henrique, Gerson e Renato durante o refrão, combina com a voz mansa de Lô, escondendo brevemente o fato de que o eco utilizado para imitar a versão original do disco tornou a música um pouco bagunçada.

Após uma pausa para aplausos dos comportados fãs, Lô engata a segunda música do setlist, ainda dos tempos de Clube da Esquina, Paisagem da Janela. A canção de ritmo alegre, com seus versos fáceis de cantar, completa a felicidade do público, que, antes de começar o show, se perguntava se iriam ouvir as músicas da década de 70. Após repetir o verso final (“Um cavaleiro marginal, banhado em ribeirão”), Lô faz sua primeira saudação aos presentes. A aparente timidez fica de lado para dar espaço ao simpático mineiro, com seu sotaque gostoso de Belo Horizonte. Agradece, conta uma rápida história sobre a preparação para a noite, todos riem – mais por descontração do que por achar graça – e fala sobre seu novo CD, Horizonte Vertical. Este show marca seu lançamento. 


O disco, seu 14º e mais recente, conta somente com composições autorais do músico. Em entrevista ao jornal paulista Estadão, Lô explicou que sentiu necessidade de voltar a compor. Ao olhar para trás, via que tinha escrito músicas preciosas na década de 70, um passado do qual se orgulha. No entanto, a partir dos anos 80, sua dedicação à arte passou a desacelerar. O gosto por produzir só reacendeu, segundo o músico, com o nascimento de seu primeiro filho em 1998. A alegria e importância de ser pai o fez pensar em seu trabalho e o que estaria deixando de legado para seu filho sentir orgulho. Resolveu voltar às suas raízes. Bolou uma rotina em que acordava pela manhã, tomava seu desjejum, sentava-se para meditar e observar a vida ao se redor. Depois, começava a escrever, e só parava às seis horas da tarde. Queria ver ampliada sua obra autoral, e conseguiu.

Apesar de o disco ser um trabalho solo, traz participações especiais de outros mineirinhos, como Fernanda Takai, Samuel Rosa, Márcio Borges e o velho amigo, Milton Nascimento. Em meio às antigas parcerias, uma recente se sobressaiu: a participação da musicista paulista Patrícia Maês. Colaboradora de mais da metade das canções no álbum, Patrícia é considerada pelo músico a responsável pelo “frescor” do trabalho. O repertório inteiro foi escrito e gravado em apenas oito meses.

Já no show, era a vez de escutar uma faixa do novo disco. Sem rodeios, Lô inicia com a música que dá nome ao álbum, Horizonte Vertical. A balada, criada em parceria com Nando Reis, mostra que o músico ainda está muito em forma, sim senhor. Tanto na composição harmônica, quanto nas letras e na afinação da voz. A mudança vem no uso de uma bateria mais marcada, com participação mais acentuada do que em seus outros discos, dando à canção um feeling menos acústico do que é esperado nas composições de Lô Borges. O público gostou. Ele, então, continuou com as músicas do novo disco.
Nenhum Segredo, feita em parceria com Patrícia Maês e Samuel Rosa, vocalista da banda Skank, é uma mistura de estilos. Não quero dizer Rock e Samba ou Maracatu e Pagode, mas sim Lô e Samuel. No disco cantam juntos, mas no show o vocal ficou inteiramente a cargo de Lô. Dispensada a banda, a música foi apresentada em voz e violão, dando um gostinho que ficava difícil definir: Skank ou Lô? Não importa, a união foi feliz e os estilos se encaixaram. E ainda mais um ponto positivo: graças ao uso de apenas um instrumento, a letra era inteligível, possibilitando à platéia, ainda pouco familiarizada com o trabalho do novo CD, apanhar a letra – ao menos, do refrão – para acompanhar o músico.

Dando um break das novas músicas, Lô entrou numa lista de canções de sua época áurea. Eu Sou Como Você É, Canção Postal e Homem da Rua, do disco Lô Borges (1972), Um Girassol da Cor dos Seus Cabelos do disco Clube da Esquina (1972) – talvez sua mais famosa música -, A Via Láctea, do disco de mesmo nome, considerado o mais importante de sua carreira e lançado em 1979.

Entre as músicas, parava para contar causos mineiros, histórias de vida, momentos engraçados. Esbanjava graça e felicidade. Tocou mais algumas do disco novo: On Venus, Xananã, Antes do Sol e Quem Me Chama, que originalmente contam com participação de Fernanda Takai; Você e Eu e Canção Mais Além, ambas dedicadas ao seu filho Luca; O Seu Olhar e De Mais Ninguém, elaboradas juntamente com Patrícia Maês e Ronaldo Bastos; Mantra Bituca e Da Nossa Criação, parceria com Milton Nascimento. Por falta destes companheiros durante o show, Lô contou com os vocais da sua banda, todos muito afinados, embora substituir Milton Nascimento não seja das tarefas mais fáceis.

Para finalizar, tocou a música que todos aguardavam. Ao ouvir a virada da bateria e a entrada da guitarra, o público se levantou, dançou e cantou Trem Azul, ainda mais uma faixa do disco Clube da Esquina. Mudando um pouco o final da canção, ao terminar com a frase inicial “coisas que a gente se esquece de dizer” repetida algumas vezes, é seguro dizer que Lô Borges não esqueceu absolutamente nada neste show. Uma bela maneira de se inaugurar um CD que tem tudo para ser mais um marco em sua (assim esperamos) ainda longa carreira.

Artista: Lô Borges
Show: Lançamento do CD Horizonte Vertical
Onde e quando: Sesc Pompéia,São Paulo, no dia 17 de novembro de 2011

Brasil - Marcelo Camelo - Toque Dela


Faltando aquele toque
Novo trabalho solo de Marcelo Camelo, Toque Dela reafirma seu talento, mas ainda é insuficiente para consagrá-lo como referência da música brasileira

por Mano Ferreira

“Triste é viver só de solidão”. Foi assim, com este verso arrebatador e em claro diálogo com Triste, música de Tom Jobim imortalizada na voz de João Gilberto, que o cantor e compositor Marcelo Camelo escolheu introduzir o seu novo trabalho, o álbum Toque Dela.

Conversar com os grandes é sempre um sinal de ousadia. Chamar a responsabilidade da tarefa, no entanto, pode acabar soando prepotente e, em certos casos, ingênuo demais: se o mundo é melhor contemplado sobre os ombros de gigantes, também é verdade que a altura do palco exige mais rigor sobre a análise artística.

Além de sua intertextualidade, a qualidade do verso debutante, com minialiterações e gradual desenvolvimento dos fonemas (onde um som convida o outro para, enfim, dormirem juntos), demonstra o inicial sucesso da empreitada de Camelo, assim como o grande potencial do autor. Por outro lado, uma audição mais atenta das dez músicas componentes do disco e uma análise do que elas significam dentro da carreira do cantor sugerem um talento conduzido indevidamente.





Na faixa Acostumar, de rimas pobres e versos preguiçosos como uma música baiana (posso até me acostumar / aaa / e deixar você fugir / iiiii / posso até me acostumar / aaa / da gente se divertir / iii), o compositor faz uma espécie de confissão: “parece brincadeira, mas eu sei que a gente faz um monte de besteira por saber que é bom demais”. A ambiguidade do trecho consegue sintetizar, provavelmente por acaso, a fronteira que Camelo enfrenta: entre o prazer de uma vida despretensiosa, ao antigo “deixa ser como será”, e a acomodação estética, sob falta de norte pelos caminhos do processo criativo.


Marcelo Camelo iniciou sua carreira como vocalista da banda Los Hermanos, lançando cd homônimo em 1999. Ano em que explodiu seu primeiro e pegajoso hit, Ana Júlia, que chegou a ser gravado até pelo ex-Beatle George Harrison. Após uma extensa agenda de shows maracanãnicos e intrigas com a gravadora, o quarteto carioca, que também incluía Rodrigo Amarante, Bruno Medina e Rodrigo Barba, decidiu mudar de rumo para se livrar de determinações comerciais imediatistas e deixou de lado sua tendência hardcore. Em 2001, no disco Bloco do Eu Sozinho, investiram suas fichas no sincretismo (já anteriormente presente, mas de forma bastante discreta) entre rock e música brasileira, em especial o samba. Essa tendência foi ainda mais aprofundada nos trabalhos vindouros, Ventura (2003) e 4 (2005). Em 2007, a banda anunciou recesso por tempo indeterminado e seus componentes passaram a se dedicar a outros projetos, sendo Camelo o único a enveredar por carreira solo - estreia que se deu no ano seguinte, com o lançamento de Sou.

Mudanças de rota fazem parte da trajetória de Camelo: sua banda nasceu na cena underground carioca, foi descoberta no festival recifense Abril Pro Rock, transformou-se no sucesso do verão (desses que costumam ser esquecidos antes do sol se pôr), assinou carta de alforria da gravadora, voltou a tocar para pequenos públicos e, enfim, cresceu de modo sustentável, a medida em que sua música amadurecia e seu público se consolidava. Neste processo, as composições de Marcelo chamaram atenção de importantes nomes da MPB, desde Maria Rita, a maior promessa de sua geração, até Ney Matogrosso, que dispensa apresentações, passando por Ivete Sangalo, a super estrela do axé.

O destaque que as composições do hermano atingiram no cenário musical brasileiro ainda não foi retumbante o bastante para firmá-lo no roll dos maiores: falta-lhe o fôlego de um álbum solo consistente, lacuna que deveria ter sido suprida com seus últimos discos, mas não foi.

É notável a transformação na sua maneira de compor. Em sua fase mais prodigiosa, o carioca demonstrava interesse por explorar múltiplos sentidos através de recursos estilísticos como jogos de palavras e figuras de linguagem. Somando-se a isso, arranjos e construções harmônicas que, longe de aprisionadoras, bebiam na fonte da tradição musical brasileira, aproveitando especialmente a riqueza melódica do conjunto de metais. Nos últimos tempos, Camelo tentou se afastar de métodos convencionais e adentrou por experimentalismos que valorizam a espontaneidade. “Pra gente se perder, amor, nesse doce tanto faz”, diz uma parte de Pretinha.




Pessoalmente (não podemos medir) deve ser ótimo o resultado desse estado de espírito. Musicalmente (nós podemos ouvir) certos experimentos trouxeram texturas diferenciadas – ora na linha percussiva, ora em notas dissonantes –, mas que não acrescentaram valor artístico. Restou a sensação de que um pouco menos de “tanto faz” renderia aquele toque que faz falta.

Artista: Marcelo Camelo
Disco: Toque Dela
Gravadora: Universal
Preço: R$ 25

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Brasil - Pouca Vogal - Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre



Muita consoante
Gessinger e Leindecker, líderes das bandas gaúchas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem, apostam no Pouca Vogal para sair da zona de conforto e se aventurar em novos horizontes

Por Anna Tiago


A pronúncia de uma vogal é mais livre, o ar escapa mais facilmente pela boca. Já a consoante requer um pouco mais de estreitamento, é mais fechada e, talvez, necessite de mais cuidado para pronunciá-la corretamente. Era isso o que Humberto Gessinger e Duca Leindecker estavam à procura: menos euforia, mais introspecção. Pouca vogal e mais intimismo.

Dois gaúchos. Duas bandas de rock de sucesso. Dois sobrenomes incomuns, com muitas consoantes. Mas a maior coincidência entre eles foi a estagnação, por tempo indeterminado, de antigas semeaduras e o desejo de plantar sementes capazes de gerar frutos inusitados. E essa nova plantação teve início em setembro de 2008, ano em que as bandas Engenheiros do Hawaii e Cidadão Quem encerraram suas turnês de Novos Horizontes e 7, respectivamente, e seus líderes resolveram se unir em prol de um novo projeto. 

Antes do disco Pouca Vogal, a dupla já tinha se “esbarrado”. Em 2004, Gessinger tocou no acústico da Cidadão Quem e, após três anos, eles começaram a compor juntos. Em 2007, Leindecker foi convidado para tocar algumas canções com o engenheiro havaiano e, desde então, pensavam em realizar algum trabalho juntos. Daí surgiu o Pouca Vogal.

Mas se engana quem ainda o pensa como projeto. O que começou como uma ideia de se desapegar das antigas bandas e brincar com uma parceria diferente foi se consolidando nesses três anos de formação. Hoje, as vogais antes do nome da nova empreitada mudaram: “o” (projeto) Pouca Vogal agora é “a” (banda) Pouca Vogal. E, segundo seus (dois!) integrantes, “a menor banda do rock gaúcho”. Impossível achar que o “menor” seja relativo à qualidade, quando se sabe que, à frente dela, estão os líderes de duas das maiores bandas de rock do Sul do Brasil.

A princípio, as oito músicas do álbum foram gravadas de forma independente e lançadas gratuitamente na internet. Por meio do site www.poucavogal.com.br, os interessados nas composições inéditas da nova parceria gaúcha poderiam obtê-las gratuitamente. A aprovação veio e, após nove meses, Gessinger e Leindecker gravaram o CD, DVD e Blu-ray Pouca Vogal ao Vivo em Porto Alegre pela Som Livre.

Ao todo, são 20 faixas. Dentre elas, clássicos das bandas originais do duo. Somos quem podemos ser, Até o fim e Refrão de Bolero são algumas das canções dos Engenheiros do Hawaii que marcam forte presença no álbum. A força do silêncio, Dia Especial e Pinhal dão uma pitada de Cidadão Quem na mistura. Boa sacada para atrair a atenção para o disco, apesar de a qualidade e inovação de Pouca Vogal não necessitar de tal artifício de “sedução”.

Entre as músicas inéditas, destaque para Além da Máscara, composição de Gessinger que trata a questão da análise crítica em relação ao mundo, exaltando um viés mais intimista, Tententender e Breve, compostas pela dupla e podendo ser consideradas o ápice da suavidade do álbum. Já a faixa Pouca Vogal representa bem a banda: pouca vogal / clássico grenal / swing esquisito / sem favorito. Era exatamente essa “esquisitice”, a fuga da zona de conforto, que o gremista Gessinger e o colorado Leindecker pretendiam.

Desde o lançamento do CD, a Pouca Vogal não para e segue fazendo shows por todo o país com seu formato simples de acústico: um banquinho e um violão. Ou melhor: dois banquinhos, um violão e uma viola caipira. E um piano, um teclado, uma guitarra, uma percussão e um pandeiro. Muitos instrumentos, poucas mãos. Mas quando o talento é grande, não importa se as coisas são de mais ou de menos.  

E, na falta de mãos, os pés. Aí é que está o grande diferencial da parceria. Tão importante quanto às canções que tocam, é a maneira como eles as executam. Cada um deles toca vários instrumentos: Gessinger é responsável pelo som do violão, da viola caipira, das harmônicas, do piano e da MIDI Pedalboard, um teclado tocado com os pés; Leindecker domina a guitarra, o violão e, com os pés, a percussão, o bombo leguero e o pandeiro. É admirável a desenvoltura dos gaúchos ao tocar diversos instrumentos simultaneamente, transcendendo o formato tradicional dos acústicos.

Depois do solo, o duo é o mínimo, mas pode rolar o máximo de diálogo musical. Gessinger acertou em cheio ao proferir essas palavras. O que se vê em Pouca Vogal é o dinamismo entre duas pessoas que estão dialogando o tempo todo. Uma fusão das particularidades, das consoantes de cada um. Os gaúchos vêm para provar que menos, em muitos casos, pode significar mais.

Artistas: Pouca Vogal 
Disco: Pouca Vogal Ao Vivo em Porto Alegre
Gravadora: Som Livre

Preço: R$ 19,90

Brasil - De Novo, Não! - Felipe Dylon - Felipe Dylon


Na onda errad
Com cara de paixonite adolescente de verão, Felipe Dylon (2003) foi um tsunami de vendas, mas não trouxe uma marolinha sequer de contribuição para a música brasileira

Por João Vitor Cavalcanti

Na música brasileira, as praias tradicionalmente serviram de cenário para exaltar a beleza das mulheres do País, seja no Sudeste - com Tom Jobim e sua “Garota de Ipanema” -, seja no Nordeste - com “La Belle de Jour”, a moça bonita da Praia de Boa Viagem, de Alceu Valença. Em 2003, Felipe Dylon também resolveu recorrer ao litoral brasileiro como ambiente para suas canções e “nunca antes na história deste país” (para falar de clichê) tanta gente quis nadar, nadar e morrer na praia.

Aos 15 anos de idade, o jovem surfista carioca assinou seu primeiro contrato com a EMI Music, apesar de estar envolvido com música desde os dez, quando formou uma banda com os amigos de escola de nome (acreditem!) “Nerds”. Como resultado, seu primeiro CD de gênero pop, Felipe Dylon, estava à venda poucos meses depois, enquanto suas músicas-chiclete compostas de voz, violão e “poesia” faziam sucesso nas rádios do País e orelhas de muitos adolescentes da época, para preocupação de alguns pais. 

“Deixa Disso” e “Musa do Verão”, cujos versos provavelmente não precisam ser escritos para causar lembrança entre muitos, aparecem respectivamente no começo e fim do álbum e foram responsáveis por vender 120 mil cópias, trazendo para Dylon o certificado de Disco de Ouro. Para muitos, essas duas faixas são o resumo do primeiro CD do jovem artista. Aqui vai um recado aos que pensam assim: caso estejam precisando de um presente caprichado de inimigo secreto para o Natal, não duvidem, Felipe tem muito mais a lhes oferecer.

É verdade, o jovem talento foi injustiçado! Se há alguns meses a também artista teen Rebecca Black fez sucesso cantando sobre os dias da semana em “Friday”, Dylon já cantava sobre o tema há oito anos na segunda faixa do seu CD, “Pura Pressão”: Quarta-feira passou assim / Quinta, coitado de mim! / mas Sexta-feira chegou pra nós / tudo pode acontecer. Felipe Dylon também é Vanguarda.

Outro ponto alto do disco é a participação de Heloísa Périssé na faixa “D+”. Na época, a humorista tinha um quadro no programa semanal Fantástico, da Rede Globo, no qual interpretava uma adolescente de apelido Tati. A atriz foi convidada a participar do álbum e, como boa humorista, não pôde perder a piada. Ao lado de Heloísa interpretando uma personagem estereotipada na canção, Felipe era naturalmente tão caricato quanto ela.



Entretanto, em meio a músicas que se confundem tanto pela temática quanto pela sonoridade como “Só Penso em Você”, “Hipnotizado” e “Vem ficar comigo” o jovem cantor resolveu, além de falar da beleza tropical das praias e mulheres do País, homenagear a própria música brasileira com versões de bandas consagradas. Felipe Dylon, porém, é tão fiel ao seu estilo que o ouvinte só conseguirá distinguir “Me liga”, de Paralamas do Sucesso se conseguir entender os conhecidos versos ao serem embalados pelos maneirismos vocais do então adolescente.

Felipe Dylon conseguiu manter sua onda por mais um ano, com o lançamento do CD seguinte Amor de Verão, que vendeu 175 mil cópias e lhe rendeu um Disco de Platina, mas em 2006 fracassou ao lançar Em Outra Direção com apenas 20 mil cópias. Talvez tenha sido consequência de um sucesso tão precoce, mas uma coisa é certa: Felipe continua sendo um excelente surfista para os que venham a escutá-lo até hoje.

Artista: Felipe Dylon
Disco: Felipe Dylon
Gravadora: EMI 
Preço: R$ 9,49

Gringo - Michael Bublé - Christmas



Merry Christmas, Mr. Bublé
Álbum natalino do canadense é um verdadeiro presente aos ouvidos.

por Diego Robeh

A história se repete em todos os finais de ano. Astros da música aproveitam o clima de “boas festas” para lançar álbuns com canções de natal. A lista é extensa: nomes como Celine Dion, Mariah Carey, Christina Aguilera, Frank Sinatra, Aretha Franklin, Beach Boys, Josh Groban, Phil Spector, Luis Miguel, Justin Bieber e até a brasileiríssima Simone já entoaram clássicos de ode ao bom velhinho. Os nomes citados são apenas alguns. Muitos outros artistas já se renderam à festa do Papai Noel e embalaram os Natais nos mais diferentes gêneros musicais. Tem para todos os gostos e estilos. Álbuns desse gênero costumam embalar as ceias ao redor do planeta e rendem grandes dividendos às gravadoras e artistas, e (por que não?) uma alegria genuína para quem ouve as velhas e tradicionais canções. O cantor e compositor canadense Michael Bublé decidiu deixar sua contribuição aos discos desse universo musical – e o fez com muita competência.

Nascido em Vancouver, no seio de uma família de pescadores, Michael Bublé sempre esteve cercado de música. Cresceu ouvindo a coleção de jazz do avô, além de interpretes como Frank Sinatra e Etta James. Suas influências musicais estão estampadas em seu disco natalino, e é o que faz o álbum soar particular, mesmo que o trabalho seja, praticamente, um disco de covers. “Christmas” foi lançado mundialmente no dia 25 de outubro e estreou no top cinco das principais paradas do planeta.

Produzido por David Foster, Bob Rock e Humberto Gatica e gravado no último verão em Los Angeles, “Christmas” é moderno, inteligente e sereno. O álbum se inicia com It’s beginning to look a lot like Christmas, clássico popularizado por Bing Crosby. A versão de Bublé é melodiosa e com um toque de modernidade. O álbum não poderia ter melhor canção de início. À exceção de duas canções originais compostas pelo próprio Bublé e por seu amigo pianista Alan Chang (são elas a balada pop Cold December Night e a “latina” Mis Deseos), todo o álbum é um reinventar de canções que povoam o Natal há várias gerações. Esse é, talvez, o maior mérito de Michael Bublé: reinventar títulos e fazê-los soarem com um frescor próprio do novo. Em nenhum momento do álbum tem-se a sensação de enfado. Ao contrário: os elaborados arranjos e a afinadíssima voz de Bublé conduzem o ouvinte a uma experiência delicada e de curiosidade que se assemelha a uma criança à espera do momento de abrir seu presente de Natal.

As músicas de tom mais religioso não faltam nesta ode à festividade natalina. Em Silent Night, Bublé é acompanhado por um coro de crianças e, mais uma vez, cumpre o que se propõe. A canção é harmoniosa e remete àquelas tão tradicionais ao espírito da época natalícia. Em Ave Maria, Bublé até canta em latim. Volta a não se afastar muito da música em si, oferecendo-lhe, no entanto, uma melodia peculiar, que a torna verdadeiramente agradável.

Os pontos altos do disco são as participações especiais. Ao lado da compatriota Shania Twain, Michael reinventa outro clássico de Crosby: a versão de White Christmas. A química entre os dois é impressionante e a releitura é tão boa quanto – ou melhor que – a original. Outro destaque é a parceria com a mexicana Thalía. Diva com mais de trinta milhões de álbuns vendidos ao redor do mundo e uma das maiores referências da cultura latina na atualidade, Thalía traz calor ao trabalho do canadense. Cantando em seu idioma materno, a multifacetada artista saúda a todos com um desejo de felicidade e prosperidade tão genuíno, que é como se a parceria dela e de Bublé fosse um encontro de velhos amigos. Por fim, a versão de Jingle Bells é a perfeita síntese do ótimo trabalho de Bublé e seus produtores em “Christmas”. A conhecidíssima canção soa completamente nova e cativante, num dueto com as deliciosas Puppini Sisters. Os vocais burlescos do trio criam um clima vintage na canção, que casa perfeitamente com a excelente voz de Bublé. O tema é absolutamente viciante e agrada à primeira audição.

“Christmas” é um presente antecipado de Michael Bublé para seus admiradores. São pouco mais de cinquenta e três minutos - divididos em dezesseis faixas -, de um trabalho que, sem dúvida, fará parte deste e dos próximos Natais de milhões de pessoas ao redor do mundo. Vale destacar ainda os seis segundos em que Michael Bublé deseja um ‘Feliz Natal’ aos ouvintes do álbum. É o que todos desejamos também para o próprio Bublé depois de ouvir o seu ótimo trabalho.

Para músicas, vídeos e fotos de Michael Bublé, visite a sua página oficial:  www.michaelbuble.com

Artista: Michael Bublé
Disco: Christmas
Gravadora: Warner Music
Preço: R$ 29,90

Gringo - Artic Monkeys - Suck it and See



Mais uma chance para os Arctic Monkeys
Em 2011 o quarteto inglês lança Suck It and See, o quarto álbum de estúdio do grupo, e reafirma sua posição entre uma das bandas mais promissoras do cenário musical atual.

por Camila Estephania

Desde o lançamento do primeiro álbum dos Arctic Monkeys, passaram-se cinco anos. Quando surgiram no mercado, ainda tinham os rostos tomados pelas espinhas da puberdade, porém, chegaram mostrando que sabiam fazer rock como gente grande. Esse período, embora pareça curto, foi o suficiente para o grupo inglês se consolidar em um espaço importante dentro do cenário musical atual. Em meia década, os rapazes criaram quatro discos de qualidade, sem contar com os projetos paralelos do vocalista da banda, Alex Turner. O resultado dessa conta nos leva à conclusão que o grupo vive uma boa fase criativa, com disposição difícil de encontrar em muitos artistas atuais.

O último lançamento da lista dos ‘macacos do ártico’ é o Suck It and See. Este, que é o quarto álbum de estúdio do quarteto inglês, é despretensioso e brilhante ao mesmo tempo. O disco chega para comprovar que os meninos, agora já crescidos, não estão preocupados em atender os padrões do mercado, como também não precisam disso para garantir seu espaço nele. Em um momento da música em que os featurings (parcerias) são quase obrigatórios para alguns artistas conquistarem mais destaque, o trabalho mais recente dos Arctic Monkeys chega com a fórmula de sempre: quatro caras dominando duas guitarras, um baixo e uma bateria. Nada mais.

Porém, seria engano pensar que o som não mudou. Da primeira faixa She’s Thunderstorms até a última That’s Where You’re Wrong, percebe-se que o arranjo instrumental da banda está cada vez mais aprimorado, além do crescimento de Alex Turner enquanto letrista e cantor. Consagrado pelas composições que contam uma história e que seguem um fio condutor bastante coerente, desde o álbum anterior, Hambug, Alex vem trabalhando com letras mais lúdicas. Em Suck It and See, um bom exemplo que segue essa linha é a divertida Brick By Brick, onde não há um foco narrativo, sendo mais interessante o jogo entre as palavras e imagens sugeridas pelos versos.

Hambug, o terceiro trabalho do grupo, contou com Josh Homme (líder dos Queens of The Stone Age) como produtor e mostrou um Arctic Monkeys de sonoridade mais pesada devido às influências do rock psicodélico, de Black Sabbath e dos próprios Queens Of The Stone Age. Suck It and See traz mais essa herança do seu antecessor. Isso fica claro já no seu primeiro single, Don’t Sit Down ‘Cause I’ve Moved Your Chair, que é uma faixa obscura e marcada por riffs pesados.

O álbum também é composto de canções mais suaves. A partir da oitava música, as guitarras se acalmam e as letras voltam a narrar histórias. Dentro desse bloco, temos uma sensível Love is a Laserquest, em que Alex conversa com uma interlocutora (o amor perdido), como já é tradicional em suas composições. Porém, a grande balada para amolecer corações é, sem dúvida, a bela Piledriver Waltz. Essa última faixa foi gravada, primeiramente, só por Turner para a trilha sonora do filme Submarine, sendo depois incorporada pelo restante da banda para o novo disco.

Suck It and See, a faixa que intitula o álbum, fala de uma pessoa que quer uma chance pra estar com o alguém desejado. Em entrevista recente a uma rádio inglesa, o vocalista da banda explicou que a expressão “Suck It and See” é bastante usada na Inglaterra com o sentido de “dê uma chance”, porém, ao pé da letra e em tradução livre, significa “chupe e veja”. A capa do disco, minimalista e tão despretensiosa quanto às canções que guarda, é composta apenas de um fundo bege com o título. Devido à confusão de sentidos da expressão, os supermercados norte-americanos censuraram com fitas adesivas a capa do compacto por considerá-la rude. Um desperdício. O título provocativo do disco é um convite inteligente para o consumidor “pagar pra ver” o que há por trás daquele fundo bege. Dê uma chance e verá que vale a pena.   

Artista: Arctic Monkeys
Disco: Suck It and See
Gravadora: EMI Music
Preço: R$ 29,90

Gringo - Adele - 21


Clube do coração partido
 “21”, segundo disco da britânica Adele, já é o disco mais vendido do ano. Nele, a cantora transforma sua dor em arte e, assim, promove uma catarse coletiva.

por Márcio Bastos

Quanta diferença faz dois anos. Que o diga a cantora britânica Adele. Ela estava saindo da adolescência quando gravou seu primeiro disco, intitulado “19”, sua idade na época. Aclamado pela crítica e com uma recepção moderada do público, o trabalho tinha como fio-condutor o amor, e já mostrava sua voz poderosa e maturidade incomum para a sua faixa etária. Em janeiro de 2011, ela lançou seu segundo CD, “21”. Delicado e poderoso, o disco apresenta a Adele adulta, magoada e no auge da sua potência vocal.

No mundo pop, a ideia de indústria de entretenimento é mais facilmente perceptível do que em qualquer outro estilo musical. Tome-se como exemplos Madonna e Michael Jackson, ou até, mais recentemente, Lady Gaga. O lançamento de seus discos é planejado com os mínimos detalhes, das superproduções videoclipíticas às apresentações quase teatrais em grandes eventos de música. Além da qualidade das canções, a eficiência do espetáculo e da imagem é essencial para se definir o sucesso do produto final.

No entanto, há alguns fenômenos culturais que não podem ser previstos. É o caso de “21”, de Adele. Ainda que seu primeiro disco tenha sido aclamado pela crítica – ganhando inclusive o Grammy de Revelação do Ano –, e as vendas tenham sido boas para uma estreante, a cantora não criou uma audiência global, e ficou mais restrita ao mercado europeu. Mas, assim como já aconteceu com outros artistas, incluindo sua conterrânea Amy Winehouse, foi a dor do fim de um relacionamento que forneceu a ela material para produzir sua obra-prima (até aqui), e conectar-se de forma definitiva com o público.

Se “19” mostrou uma Adele cantando sobre o amor romântico, em “21” o tema central são as feridas abertas provocadas pelo fim do romance. “Rolling In The Deep”, canção de abertura do álbum e primeiro single do trabalho, é um bom exemplo do que se encontrará pelas próximas doze faixas. Com uma voz rasgada, ela declara: “as cicatrizes do seu amor me lembram de nós/ elas me fazem pensar que nós quase tivemos tudo”. Assim como “Rehab”, para Winehouse, “Rolling” serviu como o rastro de pólvora para que todos chegassem ao cerne da dor da cantora.

Ao contrário de sua conterrânea, no entanto, Adele não faz o estilo “coração selvagem”. Sua poética é mais delicada, menos explícita, mas nem por isso, menos eficiente ou cortante. “Someone Like You”, uma delicada balada puxada pelo piano, se tornou um clássico instantâneo. Ao por a voz da cantora em primeiro plano, fica explícita sua habilidade vocal e precisão enquanto intérprete. No mesmo estilo, “Turning Tables” revela a maestria com a qual o álbum foi concebido. Isso porque, convenha-se, a boa e velha fossa pode ser um excelente material criativo, mas pode também tornar o trabalho monotemático e enfadonho. Não é o caso de “21”.

Sim, o fim do seu namoro é a sombra que cobre todo o disco. O sofrimento, a amargura e a solidão estão presentes em todas as faixas. Mas, a cantora e seus produtores conseguem criar uma obra coesa, com variações melódicas e sonoras. “Rumor Has It” flerta com o country, com batidas marcantes de bateria. Já em “Set Fire To The Rain” ela faz a clássica balada própria para cantoras de grande poder vocal, mas adiciona personalidade à interpretação e faz da metáfora tema da música, uma catarse poderosa.

Catarse. É exatamente isso que cantoras com Adele, Winehouse, Nina Simone, Aretha Franklin e outras grandes intérpretes oferecem ao público. Suas dores, tão particulares e, ao mesmo tempo, universais, permitem, através do grito, que expurguemos nossos demônios mais íntimos, que achemos a tradução perfeita para aquele sentimento que não conseguíamos externar.

E a dor de Adele ecoou em muita gente. Tanto que seu álbum já é o mais rentável do ano, com 12 milhões de cópias vendidas, superando a máquina publicitária de grandes artistas pop, como Lady GaGa e Rihanna. Isso talvez prejudique a (merecida) entrada da cantora na lista dos melhores do ano, porque sabe-se a popularização de uma obra, mesmo as de qualidade, faz com que muitos torçam o nariz. Se isso acontecer, será uma pena, porque “21”, se não é o álbum definitivo da cantora (afinal, é apenas seu segundo trabalho), é o testemunho de um momento marcante, tanto para a ela como para o público.

Artista: Adele
Disco: 21
Gravadora: Sony Music
Preço: R$ 24,90