Nada de divino, maravilhoso, os tempos são outros
40 anos após seu lançamento sob a sombra do regime militar, “Fa-tal – Gal a Todo Vapor” continua impressionando as novas gerações com o repertório apurado e interpretações marcantes de Gal Costa
Por Renato Contente
O Píer de Ipanema estava para a juventude carioca alternativa dos anos 70 como a joalheria Tiffanny estava para Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo. Havia, tanto para os jovens citados quanto para a personagem imortalizada no cinema por Audrey Hepburn, a crença de que, nesses lugares, nada de ruim poderia lhes acontecer.
Para Holly, sozinha em uma metrópole como Nova Iorque, a ida a loja funcionava como um escape à solidão. Para os cariocas, no entanto, ir ao píer era sinônimo de encontrar os amigos e usar maconha, como forma de anestesia às barbáries cometidas pela ditadura militar.
O lugar, antes abandonado por causa de um emissário submarino que jogava o esgoto da cidade na praia, virou palco dessa agitação toda depois de uma baiana magra e bronzeada, com seus 20 e poucos anos, passar a freqüentá-lo. Seu nome é Gal. Já considerada musa da música brasileira na época, sua influência foi tanta, que o lugar, antes conhecido por Dunas do Barato (referência a maconha), passou a se chamar Dunas da Gal.
Em 71, para entretenimento dos “desbundes” das Dunas, versão brasileira (e carioca) do movimento hippie, surgiu a idéia de montar um show simples e despretensioso, que dialogasse com os problemas sociais e políticos daquela geração de ovelhas negras. “Gal a Todo Vapor” imediatamente virou febre entre os freqüentadores do píer, que iam várias vezes por semana ao Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, assistir à apresentação da diva baiana.
Transformado em álbum duplo pela Philips no mesmo ano, sob a apropriada alcunha “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, o disco, gravado ao vivo, não demorou a fazer sucesso. Na capa, simples e arrojada, é destacada a boca vermelha de Gal ao microfone e parte de seus cabelos, elementos que, a partir de então, seriam símbolos e ícones da sua carreira. Eram, também, indícios da forte sensualidade presente no espetáculo.
Com rock, tropicália, blues e samba, “Fa-tal” é um registro cru do que se processava de novo no cenário musical brasileiro no início da década de 70, além de compilar revisitações de ícones do passado.
Especialista em Música Popular Brasileira, o historiador Luiz Américo pontua que, “no caso de Gal, ela passeava desde o samba tradicional de Geraldo Pereira, em “Falsa baiana”, até Ismael Silva, interpretando de modo magistral [...] o samba canção “Antonico”. Mas o caldeirão de influências é mais vasto ainda quando percebemos que ela não se deixa levar pelas críticas a alienação da Jovem Guarda e canta “Sua estupidez”, de Roberto e Erasmo Carlos”.
O show é dividido em duas partes, que no disco foram invertidas: na primeira, vemos uma Gal transmutada em uma elétrica band leader, na segunda, o esquema banquinho e violão deixam a apresentação mais intimista.
Seguindo a ordem do disco, que começa pela parte mais elétrica, com rock, guitarras e letras afiadíssimas, a plateia recebe de cara o “canto torto que, feito faca, corta sua carne”, como cantou Belchior em uma de suas canções. Se hoje ouvir essas primeiras músicas, em CD, é uma experiência ofegante, de perder os sentidos, fica difícil imaginar como era isso tudo ao vivo. Para ilustrar a ideia, de uma vez só, o ouvinte se depara com “Dê Um Rolê” (Novos Baianos), “Pérola Negra” (Luiz Melodia), “Mal Secreto” (Macalé), “Como Dois e Dois” (Caetano Veloso, então exilado) e “Hotel das Estrelas” (Macalé).
A abertura fica por conta de “Dê Um Rolê”, cujos versos enfáticos declaram que Gal é “amor da cabeça aos pés”. Dizendo que “só tá beijando o rosto de quem dá valor/ pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis”, a canção reflete os valores da juventude hippie da época, que tinha o sentimento em primeiro plano e deixava de lado as preocupações com o dinheiro.
Fica difícil conter-se em “Pérola Negra”, quando a baiana canta, em uma interpretação visceral, a forte poesia de Melodia (“arranje algum sangue, escreva num pano/ [...] rasgue a camisa, enxugue meu pranto”). Logo na seqüência, “Mal Secreto” representa a voz de uma geração forçada a se calar diante da situação política do país, como denuncia o trecho “massacro meu medo/ mascaro minha dor”.
“Como Dois e Dois”, feita por Caetano no exílio, evidenciava que tudo ia mal ou perfeito “como dois e dois são cinco”. O suplício de Gal continua em “Hotel das Estrelas”, quando fala dos “mortos embaixo da escada” e deixa o lirismo ser rasgado sem cerimônia ao cantar “no fundo do peito/ esse fruto apodrecendo/ a cada dentada”.
No momento seguinte, a cantora mostra que, mesmo em tempos difíceis, nem só de melancolia vive a Bahia. Pelo contrário. “Bota As Mãos Na Cadeira”, “Chuva, Suor e Cerveja”, “Luz do Sol” e “Fruta Gogóia” impregnam a plateia, ao vivo ou de casa, de alegria.
A segunda parte do disco, que começa com “Charles Anjo 45”, de Jorge Ben, dá início ao momento intimista da obra, com interpretações (e instrumentos) mais suaves. “Como Dois e Dois” aparece mais uma vez, assim como “Fruta Gogóia”, ambas em versão voz, serenidade e violão. “Coração Vagabundo”, também de Caetano, sinaliza que o coração do baiano, mesmo longe de sua terra, “não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. “Antonico” e “Sua Estupidez” ganham aqui interpretações transcendentais de Gal, apontadas até hoje pela crítica como definitivas em toda a carreira da artista.
A música que fecha o espetáculo é a que também dá nome a ele. “Vapor Barato”, de Macalé e Waly Salomão (produtor do show) é considerado o hino da Geração do Desbunde, revelando uma juventude consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. “Vapor era como o vendedor de maconha era chamado”, explica Macalé, “barato era o barato mesmo”.
Com 26 anos, barriga de fora e pele queimada de sol, Gal era objeto de desejo por parte da plateia, e o frisson que gerava era fatal. Para ampliar a quantidade de sensações e entrar em um estado de catarse permanente, alguns fãs – homens ou mulheres - se masturbavam durante o show, segundo relataram amigos da cantora.
“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi gravado ao vivo, no cru, e é repleto de defeitos técnicos. Microfonia, ruídos, pequenos acidentes (em “Fruta Gogóia”, por exemplo, Gal tropeça e cai do banco – o violão bate no microfone, ela dá uma risada e solta um “Acontece...” delicioso) e algumas quase desafinadas tão autênticas quanto charmosas. E é assim mesmo, cheio de retoques a se fazer, que “Fa-tal” é, como toda obra prima, irretocável.
Disco: Fa-tal – Gal a Todo Vapor (1971)
Gravadora: Philips Preço: R$ 30

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