O samba encontra o século XXI
No seu sexto trabalho, o alagoano Wado mistura sons eletrônicos com samba e funk e conta com vários convidados para fazer um álbum que pode levá-lo a novos ouvintes
Por Pedro Monteiro
Quando a Roland, fabricante de instrumentos musicais, lançou sua revolucionária bateria TR-808, provavelmente não esperava que o aparelho atingisse status de icônico na música popular. Depois de entrar no título de um álbum de Kanye West, além de ser citada em músicas de Beastie Boys, Beck e OutKast, a bateria inesperadamente entra no nome de Samba 808 (2011), álbum do músico alagoano Wado. Como o nome já diz, aqui, o funk, samba e a MPB típicos de Wado são filtrados por elementos eletrônicos, e o resultado é mais uma reinvenção do artista alagoano.
Wado sempre usou elementos eletrônicos como detalhes em suas composições. Samples e sintetizadores tem feito cada vez mais parte do som do compositor e em Samba 808, os efeitos – e a bateria eletrônica do título – ganham papel principal, dialogando muito bem com as diversas influências de Wado, que vão do funk carioca ao afrobeat.
Na faixa de abertura, “Si Próprio”, por exemplo, ouve-se a voz de Wado e de Zeca Baleiro, que faz participação especial mastigada por um auto-tune digno dos últimos trabalhos de Kanye West, acompanhados por guitarras distorcidas e sintetizadores chiados, mas que não escondem as raízes de samba triste da música.
A participação de Zeca Baleiro não é a única no CD. Assim como o CD é uma mistura de influências, é também uma mistura de participações. Curumim, Chico César, Marcelo Camelo, Fernando Anitelli, Fábio Góes e André Abujamra compõem a respeitável lista de convidados, e deixando Wado sozinho em apenas três faixas, das dez que compõem Samba 808.
Marcelo Camelo e Wado, em “Com a Ponta dos Dedos”, são acompanhados por uma bateria eletrônica e uma guitarra com muito delay, algo completamente distante da fase MPB-introspectiva atual de Camelo. O resultado é uma das faixas mais agradáveis do álbum, uma balada pop com estética ao mesmo tempo MPB e eletrônica.
Na ótima “Beira-Mar”, que fecha o disco, Wado canta com André Abujamra, em uma faixa que lembra muito o Karnak, a antiga banda de Abujamra. O ritmo dançante, o coro e a chamada-resposta são influências fortes da música africana, mas ao mesmo tempo acompanhada de guitarra e sintetizador. Lembraria o Vampire Weekend, se o Karnak já não tivesse explorado muito bem essa mistura há quinze anos.
O baterista, cantor e multiinstrumentista Curumin participa em “Esqueleto”, dando à música o swing e a influência hip-hop tão presentes no seu trabalho solo. A música é um bom exemplo de tudo que faz o disco funcionar tão bem: o diálogo de Wado com os seus convidados, o uso proeminente dos elementos eletrônicos e a mistura de ritmos.
O ponto fraco do álbum, curiosamente, está em uma das faixas que Wado canta sozinho. “Não Para”, uma música chapada que usa o refrão de “Elas estão descontroladas”, clássico da era Furacão 2000 do funk carioca. Ouvir Wado cantar “Não para, não para, não para não/até o chão/elas estão descontroladas” soa como o ponto mais baixo de uma música que exagera nos elementos eletrônicos e soa desconectada do resto do disco.
O ponto baixo do cd, no entanto, não compromete. “Surdos da Escola de Samba”, com participação de Chico César, e “Vai Ver”, são ótimas canções que se encaixam muito bem no repertório de Wado, combinando ótimas letras com belas melodias, sem esquecer o mote eletrônico que move o álbum.
Este já é o sexto álbum de Wado, que ainda não tem grande reconhecimento na grande mídia. Mas, seu método de lançamento – foi disponibilizado gratuitamente no site do artista – e o seu grande número de participações famosas podem levar o talentoso cantor alagoano a novos ouvintes e a conquistar novos espaços. A atenção será bem-vinda e merecida.
Artista: Wado
Disco: Samba 808Gravadora: Independente
Onde encontrar: http://www.wado.com.br/


