sábado, 3 de dezembro de 2011

Brasil - Wado - Samba 808




O samba encontra o século XXI
No seu sexto trabalho, o alagoano Wado mistura sons eletrônicos com samba e funk e conta com vários convidados para fazer um álbum que pode levá-lo a novos ouvintes

Por Pedro Monteiro

Quando a Roland, fabricante de instrumentos musicais, lançou sua revolucionária bateria TR-808, provavelmente não esperava que o aparelho atingisse status de icônico na música popular. Depois de entrar no título de um álbum de Kanye West, além de ser citada em músicas de Beastie Boys, Beck e OutKast, a bateria inesperadamente entra no nome de Samba 808 (2011), álbum do músico alagoano Wado. Como o nome já diz, aqui, o funk, samba e a MPB típicos de Wado são filtrados por elementos eletrônicos, e o resultado é mais uma reinvenção do artista alagoano.

Wado sempre usou elementos eletrônicos como detalhes em suas composições. Samples e sintetizadores tem feito cada vez mais parte do som do compositor e em Samba 808, os efeitos – e a bateria eletrônica do título – ganham papel principal, dialogando muito bem com as diversas influências de Wado, que vão do funk carioca ao afrobeat.

Na faixa de abertura, “Si Próprio”, por exemplo, ouve-se a voz de Wado e de Zeca Baleiro, que faz participação especial mastigada por um auto-tune digno dos últimos trabalhos de Kanye West, acompanhados por guitarras distorcidas e sintetizadores chiados, mas que não escondem as raízes de samba triste da música.

A participação de Zeca Baleiro não é a única no CD. Assim como o CD é uma mistura de influências, é também uma mistura de participações. Curumim, Chico César, Marcelo Camelo, Fernando Anitelli, Fábio Góes e André Abujamra compõem a respeitável lista de convidados, e deixando Wado sozinho em apenas três faixas, das dez que compõem Samba 808.

Marcelo Camelo e Wado, em “Com a Ponta dos Dedos”, são acompanhados por uma bateria eletrônica e uma guitarra com muito delay, algo completamente distante da fase MPB-introspectiva atual de Camelo. O resultado é uma das faixas mais agradáveis do álbum, uma balada pop com estética ao mesmo tempo MPB e eletrônica.

Na ótima “Beira-Mar”, que fecha o disco, Wado canta com André Abujamra, em uma faixa que lembra muito o Karnak, a antiga banda de Abujamra. O ritmo dançante, o coro e a chamada-resposta são influências fortes da música africana, mas ao mesmo tempo acompanhada de guitarra e sintetizador. Lembraria o Vampire Weekend, se o Karnak já não tivesse explorado muito bem essa mistura há quinze anos.

O baterista, cantor e multiinstrumentista Curumin participa em “Esqueleto”, dando à música o swing e a influência hip-hop tão presentes no seu trabalho solo. A música é um bom exemplo de tudo que faz o disco funcionar tão bem: o diálogo de Wado com os seus convidados, o uso proeminente dos elementos eletrônicos e a mistura de ritmos.

O ponto fraco do álbum, curiosamente, está em uma das faixas que Wado canta sozinho. “Não Para”, uma música chapada que usa o refrão de “Elas estão descontroladas”, clássico da era Furacão 2000 do funk carioca. Ouvir Wado cantar “Não para, não para, não para não/até o chão/elas estão descontroladas” soa como o ponto mais baixo de uma música que exagera nos elementos eletrônicos e soa desconectada do resto do disco.

O ponto baixo do cd, no entanto, não compromete. “Surdos da Escola de Samba”, com participação de Chico César, e “Vai Ver”, são ótimas canções que se encaixam muito bem no repertório de Wado, combinando ótimas letras com belas melodias, sem esquecer o mote eletrônico que move o álbum.

Este já é o sexto álbum de Wado, que ainda não tem grande reconhecimento na grande mídia. Mas, seu método de lançamento – foi disponibilizado gratuitamente no site do artista – e o seu grande número de participações famosas podem levar o talentoso cantor alagoano a novos ouvintes e a conquistar novos espaços. A atenção será bem-vinda e merecida.

Artista: Wado
Disco: Samba 808
Gravadora: Independente
Onde encontrar: http://www.wado.com.br/


Clássicos - Gal Costa - Fa-Tal / Gal a Todo Vapor (1971)


Nada de divino, maravilhoso, os tempos são outros
40 anos após seu lançamento sob a sombra do regime militar, “Fa-tal – Gal a Todo Vapor” continua impressionando as novas gerações com o repertório apurado e interpretações marcantes de Gal Costa

Por Renato Contente

O Píer de Ipanema estava para a juventude carioca alternativa dos anos 70 como a joalheria Tiffanny estava para Holly Golightly, de Bonequinha de Luxo. Havia, tanto para os jovens citados quanto para a personagem imortalizada no cinema por Audrey Hepburn, a crença de que, nesses lugares, nada de ruim poderia lhes acontecer.

Para Holly, sozinha em uma metrópole como Nova Iorque, a ida a loja funcionava como um escape à solidão. Para os cariocas, no entanto, ir ao píer era sinônimo de encontrar os amigos e usar maconha, como forma de anestesia às barbáries cometidas pela ditadura militar.

O lugar, antes abandonado por causa de um emissário submarino que jogava o esgoto da cidade na praia, virou palco dessa agitação toda depois de uma baiana magra e bronzeada, com seus 20 e poucos anos, passar a freqüentá-lo. Seu nome é Gal. Já considerada musa da música brasileira na época, sua influência foi tanta, que o lugar, antes conhecido por Dunas do Barato (referência a maconha), passou a se chamar Dunas da Gal.

Em 71, para entretenimento dos “desbundes” das Dunas, versão brasileira (e carioca) do movimento hippie, surgiu a idéia de montar um show simples e despretensioso, que dialogasse com os problemas sociais e políticos daquela geração de ovelhas negras. “Gal a Todo Vapor” imediatamente virou febre entre os freqüentadores do píer, que iam várias vezes por semana ao Teatro Tereza Rachel, em Copacabana, assistir à apresentação da diva baiana.

Transformado em álbum duplo pela Philips no mesmo ano, sob a apropriada alcunha “Fa-tal – Gal a Todo Vapor”, o disco, gravado ao vivo, não demorou a fazer sucesso. Na capa, simples e arrojada, é destacada a boca vermelha de Gal ao microfone e parte de seus cabelos, elementos que, a partir de então, seriam símbolos e ícones da sua carreira. Eram, também, indícios da forte sensualidade presente no espetáculo.

Com rock, tropicália, blues e samba, “Fa-tal” é um registro cru do que se processava de novo no cenário musical brasileiro no início da década de 70, além de compilar revisitações de ícones do passado.

Especialista em Música Popular Brasileira, o historiador Luiz Américo pontua que, “no caso de Gal, ela passeava desde o samba tradicional de Geraldo Pereira, em “Falsa baiana”, até Ismael Silva, interpretando de modo magistral [...] o samba canção “Antonico”. Mas o caldeirão de influências é mais vasto ainda quando percebemos que ela não se deixa levar pelas críticas a alienação da Jovem Guarda e canta “Sua estupidez”, de Roberto e Erasmo Carlos”.

O show é dividido em duas partes, que no disco foram invertidas: na primeira, vemos uma Gal transmutada em uma elétrica band leader, na segunda, o esquema banquinho e violão deixam a apresentação mais intimista.

Seguindo a ordem do disco, que começa pela parte mais elétrica, com rock, guitarras e letras afiadíssimas, a plateia recebe de cara o “canto torto que, feito faca, corta sua carne”, como cantou Belchior em uma de suas canções. Se hoje ouvir essas primeiras músicas, em CD, é uma experiência ofegante, de perder os sentidos, fica difícil imaginar como era isso tudo ao vivo. Para ilustrar a ideia, de uma vez só, o ouvinte se depara com “Dê Um Rolê” (Novos Baianos), “Pérola Negra” (Luiz Melodia), “Mal Secreto” (Macalé), “Como Dois e Dois” (Caetano Veloso, então exilado) e “Hotel das Estrelas” (Macalé).

A voz doce e urgente de Gal não se conteve em meio ao clima de repressão da ditadura, que, em 69, tinha exilado Caetano e Gil, seus padrinhos musicais. Essa primeira parte de “Fa-tal” sinaliza bem o estado de espírito da cantora, que adotou os gritos e a psicodelia para reclamar de tudo que estava acontecendo. Para ela, o exílio dos dois foi como perder o chão, o que acabou servindo para seu amadurecimento pessoal e artístico.

A abertura fica por conta de “Dê Um Rolê”, cujos versos enfáticos declaram que Gal é “amor da cabeça aos pés”. Dizendo que “só tá beijando o rosto de quem dá valor/ pra quem vale mais o gosto do que cem mil réis”, a canção reflete os valores da juventude hippie da época, que tinha o sentimento em primeiro plano e deixava de lado as preocupações com o dinheiro.

Fica difícil conter-se em “Pérola Negra”, quando a baiana canta, em uma interpretação visceral, a forte poesia de Melodia (“arranje algum sangue, escreva num pano/ [...] rasgue a camisa, enxugue meu pranto”). Logo na seqüência, “Mal Secreto” representa a voz de uma geração forçada a se calar diante da situação política do país, como denuncia o trecho “massacro meu medo/ mascaro minha dor”.

“Como Dois e Dois”, feita por Caetano no exílio, evidenciava que tudo ia mal ou perfeito “como dois e dois são cinco”. O suplício de Gal continua em “Hotel das Estrelas”, quando fala dos “mortos embaixo da escada” e deixa o lirismo ser rasgado sem cerimônia ao cantar “no fundo do peito/ esse fruto apodrecendo/ a cada dentada”.

No momento seguinte, a cantora mostra que, mesmo em tempos difíceis, nem só de melancolia vive a Bahia. Pelo contrário. “Bota As Mãos Na Cadeira”, “Chuva, Suor e Cerveja”, “Luz do Sol” e “Fruta Gogóia” impregnam a plateia, ao vivo ou de casa, de alegria.

A segunda parte do disco, que começa com “Charles Anjo 45”, de Jorge Ben, dá início ao momento intimista da obra, com interpretações (e instrumentos) mais suaves. “Como Dois e Dois” aparece mais uma vez, assim como “Fruta Gogóia”, ambas em versão voz, serenidade e violão. “Coração Vagabundo”, também de Caetano, sinaliza que o coração do baiano, mesmo longe de sua terra, “não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. “Antonico” e “Sua Estupidez” ganham aqui interpretações transcendentais de Gal, apontadas até hoje pela crítica como definitivas em toda a carreira da artista.

A música que fecha o espetáculo é a que também dá nome a ele. “Vapor Barato”, de Macalé e Waly Salomão (produtor do show) é considerado o hino da Geração do Desbunde, revelando uma juventude consciente do momento vivido, mas presa às limitações do regime e da droga. “Vapor era como o vendedor de maconha era chamado”, explica Macalé, “barato era o barato mesmo”.

Com 26 anos, barriga de fora e pele queimada de sol, Gal era objeto de desejo por parte da plateia, e o frisson que gerava era fatal. Para ampliar a quantidade de sensações e entrar em um estado de catarse permanente, alguns fãs – homens ou mulheres - se masturbavam durante o show, segundo relataram amigos da cantora.

“Fa-tal – Gal a Todo Vapor” foi gravado ao vivo, no cru, e é  repleto de defeitos técnicos. Microfonia, ruídos, pequenos acidentes (em “Fruta Gogóia”, por exemplo, Gal tropeça e cai do banco – o violão bate no microfone, ela dá uma risada e solta um “Acontece...” delicioso) e algumas quase desafinadas tão autênticas quanto charmosas. E é assim mesmo, cheio de retoques a se fazer, que “Fa-tal” é, como toda obra prima, irretocável.

Artista: Gal Costa
Disco: Fa-tal – Gal a Todo Vapor (1971)
Gravadora: Philips
Preço: R$ 30



Gringo - Coldplay - Mylo Xyloto



Do muro que brotam pétalas
Com inspiração no graffiti, Coldplay conta uma história de amor feliz em Mylo Xyloto, seu novo disco
Por Mano Ferreira
Um mundo distópico sob um cenário urbano agressivo. Um muro. É neste ambiente que um casal de jovens, ao entrar para gangue chamada “Os Garotos Perdidos”, roubam um carro, se conhecem e podem, a partir daí, desenvolver um amor livre, sincero e profundo –  de brotar pétalas nos tijolos. Parece ser esse o enredo de Mylo Xyloto, o novo álbum da banda britânica Coldplay.
Como devidamente evidenciado na capa do disco, o trabalho recebe uma definidora influência do graffiti inglês, imprimindo essa marca tanto nos temas como nas ambientações que foram escolhidas para os videoclipes, tremendo sucesso de público e crítica – diga-se de passagem.
Lançado no final do último mês de outubro, o disco contém 14 faixas. A abertura é feita com música homônima ao álbum, Mylo Xyloto, uma vinheta instrumental bem curta, que anuncia o clima do que está por vir. Sem grandes pretensões, usando elementos eletrônicos e sintetizadores, prepara o clima para Hurts Like Heaven, que acelera a pulsação e começa a envolver mais ardentemente o ouvinte, com riffs ora de teclado, ora de guitarra, em timbres que se alternam entre graves e agudos.
A terceira faixa é Paradise, super candidata a single, uma balada romântica com belo arranjo, de andamento mais lento, guiado pelos toques de piano. Em seguida, Charlie Brown conta justamente a história dos tais garotos perdidos que roubam um carro (I stole a key, took a car downtown where the lost boys meet) e que a faixa seguinte, Us Agains the World, trata de unir com sutileza e romantismo, levados por um violão cru, tocado como em um lual de amigos, com vocais suaves para expressar a florescente paixão do protagonista.
Uma segunda vinheta instrumental surge. São 48 segundos que realçam a música seguinte, que teve direito até a pré-lançamento e foi eleita para a promoção do álbum nas rádios. Trata-se de Every Teardrop Is A Waterfall, que usa bastantes sintetizadores e bebe vastamente da influência da música eletrônica, com ritmo bem marcado e dançante, além de elementos da música celta.
Major Minus vem na sequência, empunhando um acústico que se funde a distorções e, mais uma vez, sintetizadores. Nesse caso, o violão tem uma batida mais agitada, se relacionando, a certa medida, com bandas como U2 e Red Hot Chili Peppers.
Com jeito de cambalhota desajeitada, Princess of China traz  o esquisito resultado da participação de Rihanna, artista que pertence a um universo pop completamente distinto do rock alternativo britânico. Certamente, o pior momento do disco.
Up in Flames recupera o espírito, trazendo mais uma balada, dessa vez conduzida por uma batida eletrônica junto a um piano calmo e preciso. A Hopeful Transmission, a terceira e última vinheta curta de Mylo Xyloto, é, de fato, uma esperançosa transição para Don’t Let It Break Your Heart, que resume a atmosfera do disco, o amoroso final feliz, com pétalas brotando do muro grafitado.
Artista: Coldplay
Disco: Mylo Xyloto
Gravadora: EMI
Preço: R$ 25